Retalhos de uma vida - Livro do autor do blog

http://www.bookess.com/read/7054-livro-retalhos-de-uma-vida-/ ISBN - 978-85-8045-076-7 Definir um livro pela resenha é um fato que só é possível quando o livro realmente apresenta um conteúdo impar, instigante, sensível, inteligente, técnico e ao mesmo tempo de fácil entendimento....e Retalhos de uma vida, sem sombra de dúvidas é um livro assim. Parabens, o livro está sendo um sucesso. Ricardo Ribeiro - psicanalista

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Energia - Potência e poder

A energia como fator fundamental da existência do ser vivo, é condição indissociável e sempre presente em qualquer processo físico ou químico, e que deve ser entendido segundo as leis da física.
È o veículo dos vários elementos do corpo, que em cada fenómeno necessita de uma certa quantidade de energia, que não podemos mensurar, a que se opõe uma determinada resistência, proveniente de outros corpos, que exercem uma certa pressão, que provoca alterações de intensidade energética.
È da energia que provém a potência, que permite os diversos movimentos, tanto orgânicos, fisiológicos, como psíquicos.
Aquilo que chamamos de poder, é a força potencializada que exercemos sobre outros corpos, de forma mais ou menos intensa, de acordo com aquilo que sentimos na interioridade.
O poder por isso, só o percebemos, quando passamos da interioridade para o meio exterior, cuja finalidade é a tentativa em obter o que nos possa satisfazer.
Essa força energética, serve a qualquer propósito e a todas as funções do corpo.
Quando falamos por exemplo, num poder narcisista, o fazemos tendo como referência um potencial energético, que tem uma certa quantidade de energia, que não é mensurável, mas apenas é sentida pelo o indivíduo, em forma de tensão,
Quando nos referimos a uma forma narcisista, o fazemos em face de um modo idealista de entender as coisas e o mundo que nos rodeia.
O leitor dirá que todos temos ideais a perseguir e que isso é normal, e na realidade assim é, mas a referência a formas idealizadas em psicanálise, significa obsessão mental, que a qualquer custo são metas a alcançar pelo indivíduo, tantas vezes desrespeitando e desconsiderando o seu semelhante.
È por isso a quantidade de energia e a sua intensidade provocada por um desejo, que se deseja de forma intensa, que determina o fenómeno a que chamamos de poder narcisista, e não a própria ideia em si mesmo.
Potência e poder devem ser entendidas como coisas diferentes.
Nasce daqui a noção de que somos um corpo energético, que temos potência, mas que nem sempre somos potentes para executar as diversas tarefas a que nos propomos, apenas porque não somos super homens ou heróis, e temos alguma limitações, tanto de ordem física, quanto psíquica.
Aquele que julga ter poder, sente-se poderoso, como forma própria e idealista de entender as coisas, quando frustrado, sente-se impotente.
A sua energia como que desapareceu e sente-se brocha.
O super homem virou minhoca, vítima do seu próprio idealismo, que o fez crer poderoso, quando afinal em tantas momentos é tão fraco quanto os outros.
Que é feito da energia do homem aranha, que fazia dele um ser superior a todos os
outros ?
Cabe ao psicanalista perceber onde ela agora está localizada, porque o sujeito não consegue entender o que fugiu de si, que o deixou tão abalado e sem energia, que mais parece um farrapo, do que um ser humano com vida.
Deixamos de falar do ser, e passamos a falar do estar, como duas condições distintas da existência do ser humano.
Eu estou satisfeito, alegre, de bem com a vida, amo e sou amado.
Eu estou insatisfeito, triste e angustiado, abandonado e carente.
Eu sou aquele, que está e não está por momentos, porque não consegue estar em todos os momentos, satisfeito ou insatisfeito.
Somos aquilo que podemos ser em cada momento, e não aquilo que gostaríamos de ser.
São os momentos de solidão que exigem uma companhia. São os momentos da partilha, que impõe a necessidade de vir a estar sozinho por momentos.
È nesta tentativa de equilíbrio que nos posicionamos, porque sentimos que algo nos faz perder o equilíbrio, embora na maioria das vezes nem sequer conseguimos perceber o que nos levou a ficar nessa posição, e o que emerge é um sentimento de perda.
Quem não consegue compensar e recuperar de forma mais ou menos imediata o equilíbrio, sofre e fica angustiado.
Não é por cair que não se levanta, mas antes por entender que o trambolhão foi grande, e julga não ter condições para poder levantar-se, erguer a cabeça e seguir em frente, tomando como exemplo a própria queda.
Ele simplesmente não deseja cair, por isso coloca a máscara do poderoso.
Transformou a flor do narciso, na casa dos horrores.

Artigo do autor do blog publicado no jornal Informativo centro – Oeste - Divinopólis

sábado, 26 de junho de 2010

Ensino

Indústria sente os reflexos da má qualidade do ensino público
Existem áreas que são cruciais para o desenvolvimento de um país. Dentre elas, está a educação, considerada como prioridade número um pela maioria das fontes de pesquisa e informação que se presta a levantar os aspectos que corroboram para se chegar a sociedades mais prósperas e de melhor qualidade de vida. No Brasil, consensualmente, todos a apontam como sendo a base para o crescimento. A educação é também um dos temas mais frequentes do discurso político e, nas empresas, encabeça a maioria dos projetos de responsabilidade social corporativa.
No entanto, um paradoxo se interpõe entre o discurso e a realidade em nosso país. Apesar de sua importância, a educação é a área que menos recebe atenção do governo. Em relação às demais profissões, a de educador se apresenta como a mais desvalorizada. Os professores, por sua vez, figuram entre os profissionais de pior remuneração no mercado de trabalho.
Devido a essa situação de descaso, que se arrasta há anos no Brasil, a profissão de mestre está na lanterninha dos sonhos de qualquer recém-formado. Como a carreira não oferece nenhum atrativo, ninguém quer ser professor por aqui. É possível antever que nos próximos dez anos vão faltar professores. E aí, as conseqüências serão ainda mais danosas, do que as que já enfrentamos em muitos setores de nossa economia, a exemplo da indústria, onde a falta de mão de obra especializada reflete bem a má qualidade do ensino público. Empregos existem, mas não há profissionais para contratar.
Segundo o Índice de Competitividade Mundial, lançado em maio, o Brasil subiu duas posições no ranking, passando a ocupar o 38º lugar. O crescimento da produtividade empresarial e a geração de empregos foram determinantes nesse resultado. A pesquisa foi desenvolvida pelo International for Management Development, em parceria com a Fundação Dom Cabral, responsável pelos dados brasileiros. Foram analisados 58 países e monitorados 331 indicadores quantitativos e qualitativos.
O estudo mostra que o Brasil ganhou posições na categoria "eficiência dos negócios", tornando-se mais competitivo, mas perdeu duas posições no quesito educação, ficando no 53º lugar. Em outra pesquisa, que culminou com o Relatório de Competitividade Global 2009-2010, publicado pelo World Economic Forum, o Brasil também melhorou seu desempenho no que tange à competitividade. Mas o que chama a atenção, tanto num documento quanto no outro, é o fator educação e a má qualidade do ensino público brasileiro.
Ao analisar os resultados do Relatório de Competitividade Global 2009-2010, o sociólogo e consultor da Confederação Nacional da Indústria (CNI) José Pastore comentou, à época: “Olhando da perspectiva do que falta ao Brasil para chegar ao nível da China (29ª posição), do Chile (30ª), da República Checa (31ª), da Tailândia (36ª), da África do Sul (45ª) ou da Índia (49ª), há que se examinar os indicadores que compõem o índice de competitividade”.
No caso do Brasil, diz ele, “o obstáculo que salta aos olhos é a precária qualidade da educação fundamental”, ligada à má qualidade dos professores, coordenadores e diretores de escolas, cuja grande maioria se forma nos cursos de pedagogia, avaliados negativamente pelo próprio Ministério da Educação (MEC). Em um universo de dois mil cursos, apenas nove obtiveram a nota máxima (5).
A conquista no ranking da competitividade pode estar ameaçada, já que não existe mão de obra especializada para atender a crescente demanda registrada na indústria. De acordo com sondagem realizada pela CNI, a falta de trabalhador qualificado passou de segunda para primeira preocupação dos empregadores neste começo de ano, comparado ao último trimestre de 2009. Nos últimos três meses de 2009, o primeiro lugar era ocupado pela elevada carga tributária.
É preciso que os governantes tenham determinação e vontade política para mudar esse quadro. Hoje, os professores lutam para fazer valer o piso salarial nacional para toda a categoria, no valor de R$ 1.312,00. Ainda assim, há municípios em que nem mesmo o piso está assegurado. Dar condições dignas de trabalho aos professores, passa pela valorização salarial, e é isso que a sociedade espera dos gestores públicos. Precisamos mudar o olhar em relação à educação e exigir o cumprimento de uma política educacional que valorize a qualidade e o aprendizado.

Orizomar Araújo Siqueira. – Postado no blog – Metendoo bico

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Esquizófrenia

Os olhos que amam
Também matam
Os olhos que enxergam
Recusam-se a ver
Cegos por uma ideia
Que fazem do dia
Noite.

Falar de esquizofrenia é falar de corações partidos e ao mesmo tempo perdidos.
È falar de fragmentos humanos que por diversas razões não foi possível juntar.
È falar do persecutório, como algo ou alguma coisa que sempre á espreita, não o deixa ser inteiro.
È falar de um ser que não é, que gostaria de ser, que olha no espelho e não se reconhece.
È falar com os outros e dos outros, porque não sabe falar de si.
È falar de amor, por não saber amar, porque nunca foi respeitado.
È falar, falar, e não deixar de expressar-se, porque nada contém em si.
È a falta de uma ordem interna, que se manifesta pela desordem externa.
È a expressão que lhe garante uma certa ordem e o faz viver.
È a representação de uma interioridade, que não lhe foi permitida representar.
Não sei quem sou.
Falar da esquizofrenia, julgando tudo saber, sem uma base de estudo e sobretudo de investigação, é falar da sua própria prepotência e intolerância, ignorando o ser esquizofrénico.

Guardai o segredo
Julgando guardar
Vossas almas
Em segredo

O ser mortal
Que deseja a imortalidade
Guarda dentro de si
A morte
De uma ideia
Mantida em segredo
Que não tem condições
Para se mostrar
Que só a revelação
A verdade
O pode salvar.

João António Fernandes - Psicanalista

Evolução

terça-feira, 22 de junho de 2010

Complexidade

Enxergar os fenómenos, como formas simples, que exigem uma atitude imediata, é próprio daquele que ocorre a uma emergência, porque a casa está a arder, em que fica satisfeito por salvar seus haveres, continuando a desprezar o que deve ser feito, para que tal não possa acontecer de novo.
Confia na sorte, ou em qualquer outra coisa, e recusa-se a iniciar um processo de ( re ) aprendizagem para que as desgraças tenham menos probabilidades de acontecerem.
Se o trem continuar a rodar na mesma linha, as estações serão sempre as mesmas, assim, os resultados serão mais ou menos os mesmos.
São os estados depressivos, em que o indivíduo recusa enxergar outras realidade, que o leva á depressão, como consequência de uma sequência, de uma vida prepotente e intolerante, que recusa o aprendizado, porque o seu saber, parece bastar-lhe.
Na realidade os seus conhecimentos pareciam ser suficientes, mas de repente, como num passe de mágica, não lhe parecem valer, entrando na depressão, colocado a um canto, olhando o chão, interiorizando a sua inutilidade como ser humano.
Seria lógico, que uma vez assim prostrado, saísse dessa condição, e manifestasse a vontade de mudar o rumo á sua vida, que para isso deveria ter a ajuda necessária.
Puro engano, perdido no horizonte, agarra-se á sua interioridade, como algo que resta de si, para não se perder de vez e morrer, ou ser considerado moribundo.
Não se apercebe, porém, que já perdeu, ou está a perder aos poucos.
Mas o que perdeu ?
Apenas a visão, a sensação, de uma perda interior, ou de parte de uma força interior narcisista, que para ele significa o poder, o ter poder é ter vida.
Tenta garantir para si, o resto dessa força interior que lhe resta, por medo de sentir-se inútil.
O deixar de ser importante para os outros, o leva a pensar que não é importante para si mesmo.
Mas não podemos encontrar apenas no poder narcisista exacerbado a explicação para a depressão e violência, dado que constitui parte de uma complexidade psíquica, que sem outros elementos associados, o seu efeito não se faz sentir nas atitudes humanas, ou pelo menos de forma tão intensa.
Sabemos que o poder narcisista pressupõe uma alteração da quantidade de energia produzida através do corpo, o que na realidade, pouco ou nada nos diz, a não ser a constatação de um aumento exagerado de tensão interior.
Significa que tal alteração pode dar lugar a inúmeras atitudes, nem sempre previsíveis.
Parece ser, antes de tudo, necessário entender como ela é produzida, devido a quê, e através de que mecanismos tal é possível.
Hoje, parece ser ponto assente, pelo menos na classe dos estudiosos da mente, que deve ser banido os açoites na bunda das crianças, o que já é um bom princípio, mas manifestamente insuficiente.
Direi mais, o indivíduo que está habituado a lidar com as crianças na base da agressão física, por medo de ser punido, pode de fato fazer um esforço para abster-se de o fazer, mas tende a reforçar as exigências psíquicas, entenda-se agressões verbais, que se não levar á violência, tende a conduzir o indivíduo á patologia.
Ora, a questão, não parece que seja escolher entre uma sociedade violenta e uma sociedade adoecida, mas antes criar as condições, para que ambas possam ser atenuadas de forma clara, uma vez que, de todo não é possível erradicar seja o que for.
Sabemos que a agressão física, é uma resposta motriz, perante a impossibilidade psíquica, porém, por vezes nos esquecemos desses princípios básicos, na hora de analisar os fenómenos.
Por outro lado, deixamos passar em claro, que a agressão verbal, pode ser considerada do mesmo modo uma resposta motriz, dado que não tem qualquer conotação com o pensamento, mas antes com um processo de ação / reação, proveniente de formas instintivas inatas, ou adquiridas.
Nos dispomos, por norma, a atacar as evidências, proibindo, quando elas ocultam uma realidade mais profunda, que se encontra na relação, que muitos de nós, não parece estar interessado em enxergar, ou simplesmente, não detém o saber bastante para o fazer.
Se a sociedade está doente, é porque a família desde há muito está despojada de uma realidade formativa, em que os exemplos transferidos para os filhos, não parecem ser os mais adequados.
Falemos claro, para que não sejamos atropelados pela realidade que nos é presente a todo o momento, em que a maioria, perante a impotência, só pode mesmo é reclamar.
E porque reclama, alguém tenta proibir, para satisfazer seus anseios.
Perante o mal estar da sociedade, entra-se num círculo vicioso de ação / reação, que não leva a lado nenhum, a não ser á disseminação de uma impotência, que tende a conduzir á luta, que alguns fazem crer, entre o bem e o mal. .
É doloroso admitir, que aquilo que é designado por bem e mal, é fabricado dentro de casa, devido á interioridade ambivalente dos seus membros, que ao não saber gerir as contrariedades, são eles próprios que tendem a praticar a maldição.
De outro modo, estaria comprometido outro princípio básico da evolução do ser humano, a transmissão de conhecimentos.
Se aqueles que têm alguma responsabilidade pública, continuarem a alimentar este estado de coisas, apresentando uma reação, que não o mais saber, o trem não pára até explodir por si mesmo, contra um obstáculo qualquer.
É assim nas guerras.
È assim no cotidiano.
É necessário, parar, olhar, escutar, e perceber que só a proibição não promove o ( re ) equilíbrio emocional no agregado familiar, nem na sociedade.
A sensação de impotência, não deve ser sublimada através da agressão física ou verbal, dado que ela corrompe da mesma forma a interioridade do ser humano.
Devemos perceber de onde vem tal sensação de impotência, tentando levar o indivíduo a ( re ) organizar-se interiormente.
Desse modo, não parece que seja apenas com medidas coercivas, circunstanciais, que podemos conter os abusos na formação infantil, que posteriormente tendem a refletir-se na sociedade, como nos é dado a observar no dia a dia.
Se a lei da Maria da Penha, por exemplo, é uma conquista do legislativo, dada as constantes agressões praticadas e evidenciadas, não conseguiu resolver por si mesma o problema da violência doméstica, de que a mulher é vítima, muito embora puna com prisão o agressor.
Poder-se-ia pensar, que a pena de morte implantada nos Estados Unidos, levaria as pessoas a abdicar da violência, o que de fato não aconteceu, sendo considerado um dos países mais violentos do mundo.
Nem a tentativa de extermínio de uma raça, conseguiu que ela desaparecesse da face da terra, bem pelo o contrário, fez com que os Judeus fossem filhos do mundo, espalhados pelos quatro cantos do Universo, disseminando a sua origem, através da procriação com outras raças.
Resultado, se a idéia era não ter sangue Judeu, o sémen contrariou tais ambições idealistas e fanáticas.
Se existe um poder narcisista que tudo parece detonar, e, é entendido, por si só, como gerador de violência, a contra proposta, é a pena de morte, a prisão, e os esquadrões da morte, em que perante um poder bárbaro, tenta-se opor um outro, na tentativa de o superar.
Se os Judeus tivessem enfrentado a barbárie, em vez de fugir, talvez não existissem como raça.
A humanidade ao longo dos séculos tem vindo a sofrer os efeitos desta forma de sentir e pensar as coisas e o mundo, não obstante toda a evolução científica e tecnológica, em termos de formação familiar, ainda estamos na idade média.
Se pensamos que só a proibição da agressão física, ou a simples palmada na bunda, resolve o problema da violência, estaremos na realidade a enxergar apenas uma parte do problema.
Como já deu para entender, dado os exemplos anteriormente descritos, não basta proibir, prender, matar ou baixar um decreto, para solucionar o problema da violência, seja ela qual for.
Desse modo, dirão alguns, mais uma razão para imputar ao poder narcisista exagerado, tais atitudes.
Simplesmente lhes direi, que a maioria das pessoas podem apresentar um poder narcisista exacerbado, sem fazer uso da violência, o que contraria de forma clara, tal forma de enxergar as coisas.
Por isso falo em complexidade, que cada indivíduo tem uma história de vida mal contada, ou por contar, dado que tantas vezes a desconhece, que faz dele um caso único, particular, que deve, e merece ser observado como um ser humano diferenciado.
As diferenças, não as vamos encontrar no corpo, nos órgãos, nem na matéria, porque semelhante, em que a função é sempre a mesma.
A diferença a encontramos em algo, que muitos desconsideram por ser abstrato, como as idéias construídas e associadas, através de imagens, e toda uma série de elementos alheios á sua própria condição de ser animal, que servem de fatores de interseção, inibidores e bloqueadores, do pensamento humano.

domingo, 20 de junho de 2010

Idealismo Presidencial Português

Tenho para mim que um Presidente da República deve ter como único ideal conduzir o destino da nação, tendo uma postura equilibrada, que possa, por um lado amenizar as questões mais polémicas da vida do seu povo, e por outro lado, criar incentivos aos cidadãos na sua caminhada evolutiva.
José Saramago foi uma figura polémica em vida, gerando paixões e ódios, devido á sua expressão frontal, falada e escrita, daquilo que julgava ser o melhor e mais justo para o ser humano, considerado por muitos como um idealista comunista.
O homem, José Saramago, pode ser idealista.
O Presidente da República Portuguesa não o deve ser.
Algumas figuras públicas estrangeiras reconheceram o Prèmio Nobel da literatura Portuguesa, como escritor de alguma importância no cenário internacional, e vieram até Portugal prestar a sua homenagem.
O Prof. Cavaco Silva, Presidente da República Portuguesa, achou melhor continuar de férias na Ilha das Flores.
Numa entrevista, afirmou que não tivera o prazer de conhecer José Saramago.
Mas deveria conhecer o escritor, e reconhecer a sua importância no cenário internacional.
Com sua atitude, incendiou os Portugueses.
Uns entendem, que muito embora suas preferências políticas não fossem do seu agrado, deveria ser reconhecido como personagem importante da literatura mundial. Outros, colados ao simbolismo do comunismo, idealistas e fanáticos, causam o maior reboliço devido ao destempero mental do Presidente da República. Do outro lado, erguem-se as bandeiras da direita conservadora, autoritária, prepotente, e, de igual modo idealista e fanática, chamando a José Saramago traidor da Pátria.
Há mais de um século, que filósofos, escritores, e outras criaturas estranhas, foram perseguidas pelo o poder político, queimando suas obras, por medo de alguém ser contaminado com tantas blasfémias, em que alguns procuraram abrigo num País estrangeiro, apesar de não serem Judeus.
Hoje em dia os chefes de Estado são muito mais democráticos, embora as suas idéias sejam as mesmas, a tentativa de exclusão, de discriminação, como não podem mandar perseguir, destruir e matar, incendiam o povo com suas atitudes idealistas.
Triste sina a de um povo que não reconhece o valor de um escritor, Prémio Nobel, e deixa-se levar por questões particulares.
Os filhos colhem o exemplo de seus pais.

Amigos de África

No mapa do blog podemos constatar a presença, já faz algum tempo, de alguns amigos que nos visitam, localizados no golfo da Guiné, porém, sem que possamos identificar o País.
Por simples curiosidade, gostaria de saber qual a vossa nacionalidade. O poderão fazer através dos comentários, ou pelo o E-mail -Joanfersilva@yahoo.com.br.
Convido-os também a participar ativamente.
Um abraço

sábado, 19 de junho de 2010

O estigma das proibições

Não acreditem no que lhes digo, nem sequer, á partida neguem o que vos desejo transmitir, dado que estou sujeito, como qualquer outro ser humano ao erro e acerto.
Tentem perceber, se aquilo que vos estou a oferecer tem algum fundamento, e, a que princípios estão vinculados.
Uns dizem, que por preguiça mental acreditamos em tudo, desde que o autor nos mereça credibilidade. Mas tenho para mim, que isso não corresponde ao sentir interior do indivíduo que é crente, mediante as aparências, em que é levado a essa forma de estar e entender a vida, devido a uma resultante, derivada de formas sentidas anteriormente.
O crente não é burro, nem menos inteligente que outro ser humano qualquer, apenas vive com o estigma cravado na sua personalidade, que o leva a esse lugar, que o fez crente.
O emprego da palavra, crente, é abrangente, e não existe a intenção de a relacionar com um assunto determinado, dado que a crença faz-se sentir nos mais diversos campos da atividade humana.
Ele transporta consigo desde a infância esse estigma, devido a uma impossibilidade criada através da formação que o condicionou, que o negou como indivíduo, que não o fez sujeito, mas a que está sujeito e submisso, eterno obediente ás inibições, devido a tanta proibição de que foi vítima.
È um indivíduo castrado de forma artificial, das coisas de sua própria natureza, que o proibiu de empregar o princípio de racionalidade, quando confrontado com uma figura, entendida como possuindo mais poder que ele.
É este complexo de inferioridade embutido desde as primeiras horas de vida terrena, que garante ao indivíduo a sensação de abandono, que apresenta como resultante a procura de alguém, ou algo mais poderoso que ele, para que ela não se faça sentir, correspondendo a uma satisfação interior momentânea, circunstancial.
Porém, quando as circunstâncias tendem a ficar alteradas, ou de forma brusca se alteram, tal sentimento de abandono emerge das trevas, faz sua aparição, como um cenário recordado, com cenas de um presente não desejado.
Não parece que seja a ausência do objeto que aflige o sujeito, mas a incapacidade própria em gerir uma nova forma de relação, pelo que sente a necessidade de reclamar por um objeto, que lhe garanta a sensação de proteção, em que dessa forma, é dissolvida a sensação de estar abandonado.
É este complexo de inferioridade, transmitido como se fosse uma bactéria que se instala na interioridade do ser humano, que forma a ambivalência, ocupa o espaço nas extremidades, deixando livre a zona intermédia, que poderia garantir alguma tranqüilidade ao indivíduo, desempenhando um papel de mediador.
Quando colocado num extremo, enxerga outro, como superior ou inferior, e não como semelhante, em que sente a superioridade, perante aqueles que julga mais fracos, e torna-se submisso diante de alguns outros, que entende possuírem mais poder e conhecimento.
O questionamento fica comprometido tantas vezes, e muito mais a indagação, dado que o poder não deve ser questionado, pensa por ele, em que apenas resta ao ser humano, a submissão ou a contestação, entenda-se negação, sem que possamos perceber uma luz de racionalidade, mas simplesmente uma força reativa.
Apenas a revolta interior, como poder reativo, que podemos encontrar no âmago dessa relação, sujeito / poder, que por vezes resulta em rebeldia, revolução, transgressão, podendo destruir o seu semelhante, cuja finalidade é a tentativa de libertação daquele que se sente escravo.
Porém, escravo continua, dado que só o poderá deixar de ser, através de uma evolução intelectual, e não por empregar a força bruta motriz, na tentativa de levar por diante os seus desejos mais íntimos.
De onde resulta, que a liberdade sentida no corpo, parece ser distinta, daquela outra, que é dada ao pensamento humano, e talvez por isso, uma vez liberto, sinta ao fim de algum tempo, uma certa insatisfação, dado que não entende para que serviu tal movimento de libertação.

Mas o que podemos entender por evolução intelectual ?

Abarcar a maior diversidade de temas?
A procura de forma incessante de conhecimento?
O estar sempre atualizado, com as notícias do dia a dia, do nosso e de outros mundos?
Decerto, que tudo isso pode, e, é importante, que serve á evolução intelectual.
Mas que dizer, das proibições, das coisas que nos impuseram como proibidas, tabus, que uma vez servindo a um bloqueio mental, não pode de forma alguma seguir o seu processo de evolução intelectual?
Como podemos conectar, o que á partida nega a própria conexão com outras idéias?
Somos levados por isso ao entendimento, que ao existir um bloqueio mental, derivado de tabus, o processo intelectual cessa por aí, fica condicionado e associado, ao que não pode ser falado, nem levado em consideração, porque proibido.
A porta de saída para o ser humano, como fuga a uma impossibilidade sentida na mente e no corpo, que restringiu o sentido de vida, é a procura do desenvolvimento do intelecto por outra vias, que nos permite perceber em tal atitude a tentativa de sublimação, porém, mal sucedida, deixando atrás de si o rasto patológico da proibição, e da ignorância.
Lembro aqui, as pessoas que estão em permanente atualização, que apresentam um currículo invejável, recordam os autores e as frases mais badaladas, mas continuam a sofrer interiormente, e a sentir uma dor profunda, de algo que não conseguem entender, nem explicar, sempre agitadas, á procura de algo, que é sempre nada, que possa garantir uma certa paz interior.
A paz interior, só a conseguem sentir durante esse processo de atualização constante, porque quando lhes falta, regressa a dor e o sofrimento, devido a relações que não entendem.
São os eternos insatisfeitos, apesar de todo o seu conhecimento.
A intelectualidade, tal como é entendida em geral, não pode ser considerada em psicanálise, a não ser como deslocamento da neurose, dado que constitui uma forma artificial, que não natural, de evolução humana.
A intelectualidade é uma conseqüência desta forma natural, que faz o indivíduo trilhar os mais diversos caminhos, tendo em conta os princípios da matéria, de que são originados.
Não estamos a falar da função, que é imutável, mas de concepções artificiais, e, de princípios derivados da própria natureza das coisas, que apresentam por isso, desenvolvimentos intelectuais diferenciados.
Estamos a falar de um produto natural, o homem, enquanto ser animal, e de um outro, que pode constituir-se em humano ou não, dependendo das circunstâncias formativas a que for submetido.
Em ambos podemos constatar a evolução, mas também podemos observar em cada um deles, formas diferenciadas, distorcidas e bloqueios, sempre vinculadas a sistemas mais ou menos equilibrados ou rígidos de formação, cujos efeitos a psicanálise estuda, investiga e procura entender.

Se o corpo se escuta a si mesmo, e emite sinais ao indivíduo do que está sentindo, embora este, tantas vezes, não perceba porque sente, o que sente, e, o que o faz possuir sentido, como um tabu proveniente do exterior é incorporado, segue as mesmas orientações de um corpo que sente, e o indivíduo não consegue pensar, para além do próprio sentido?
Enquanto persistir o medo, o indivíduo não pensa, apenas reage, que confunde com o pensamento.
A negação contraria o pensamento, pelo que somos a considerar, que enquanto ela persistir, não existe lugar para o pensamento.
O pensamento deriva de uma atividade mental sem bloqueios, da possibilidade de afirmação de algo, ou de alguma coisa, que satisfaça a interioridade humana, cujo bloqueio a contraria.
Pode existir a imaginação, muito embora ela seja produzida, através de algo alheio ás nossas próprias sensações, dado que nos foi conferida por outros, o que tende a distorcer a nossa própria realidade.
Desse modo, somos convidados a viver a vida de outros, que não a nossa, para regozinho e satisfação de alguns, nos considerando então, como meninos bem comportados, merecedores de atenção.
A aliança com o poder, transmite á maioria das pessoas a idéia de possuir alguma importância para os outros, dado que ela própria sem isso, sente que não é importante, nem para si, muito menos para os outros.
O que não parece entender é a sua negação, que nega a si mesmo, a favor de um outro, que de outro modo seria semelhante aos sem abrigo, que uma vez abandonados, ou abandonando-se a si mesmos, vivem e dormem na rua.
A negação, não faz do repertório do pensamento.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Desejos

Um desejo será sentido mais intensamente, quanto mais prazer possa oferecer.
Não é só o desejo pela posse de determinado objeto que está em causa para o indivíduo, mas o que pode representar para além dele, que garante prazer adicional.
Notemos então a existência de uma injunção de desejos, formando um complexo, que necessita de maior quantidade de investimento de energia, em que a diferença de potencial em relação a outros, tende a aumentar de forma considerável.

Massacres étnicos

Segundo a Agência Reuters

Uzbeques denunciam massacre étnico em cidade do Quiguistão, antiga União Soviética.

Moradores disseram que gangues estavam cometendo genocídio nas regiões sitiadas na segunda maior cidade do país, Osh, neste domingo, queimando casas, expulsando seus residentes e atirando enquanto eles fugiam.

Heranças idealistas do passado, que, de quando em vez faz-se presente através do fanatismo, que a humanidade dispensaria muito bem.

A globalização ainda sofre efeitos, e talvez por algum tempo mais, que não sabemos, se anos ou séculos, de algumas culturas, definidas na base do idealismo e fanatismo, seja de que índole for, que só trazem a desgraça ás pessoas.

sábado, 12 de junho de 2010

Educação - As escolinhas de futebol

Quando a criança se apresenta para participar numa modalidade, seja qual for, ela o faz com alegria, para ela é um jogo, mas sem perceber que vai sujeitar-se a regras, para que possa ter uma certa disciplina que o jogo exige.
A participação coletiva, a convivência com outros seres humanos, oriundos dos mais diversos extratos sociais, de diferentes raças, de poder económico diferenciado, pertencentes a outras culturas, esbatem os preconceitos que possam existir, para começarem a perceber que afinal somos todos iguais, mais ou menos, como diria um amigo meu.
A criança confronta-se com um outro mundo exterior, e a sua resposta inicial é derivada da sua formação familiar, que necessita de ser adaptada.
Uns tentam não atender a essas regras, as transgredir, ocupando todo o espaço e invadir o dos outros. Alguns ouvem as instruções e as seguem com tanto rigor, que são incapazes de serem criativos, e de sair alguma vez do seu raio de ação.
Aos primeiros o técnico lhes tenta condicionar os movimentos, e aos outros os incentiva, para que possam ser criativos e participar mais no jogo.
Ao impor uma disciplina em relação ao jogo, o seu trabalho é de maior importância no aspecto formativo, da educação, do que própriamente nos resultados desportivos, substituindo tantas as vezes a família nesse papel.
È ele que observa quem tem pela frente, que gere o lado humano e as suas relações com os outros, e que vai tentar aproveitar as potencialidades de cada um, na tentativa de enriquecer o grupo, sendo este mais importante que o individual, aproveitando as energias a mais de uns, e tentando que outros ganhem alma, em que a bola é o elemento que os atrai e distrai nos movimentos que os vão cansar, e o time contrário é simplesmente o outro lado, que tem de existir para que se comece o jogo.
Nestas idades, a diferença de um ano, faz com que o poder físico se imponha, assim como a sua qualidade técnica e táctica, por levarem de avanço doze meses, em que repetiram milhares de vezes os mesmos movimentos que os mais novos ainda não experimentaram, daí que o resultado final de um jogo não deva merecer tanta atenção, mas antes a sua participação.
Mas se repararmos, alguns pais que estão a assistir, em vez de perceberem isso, promovem uma guerra na assistência, xingando o juiz e o técnico, querendo impor os seus valores, que embora não entenda, são complexos de inferioridade, com lamentáveis e tristes cenas, sendo ele o instigador da rebeldia e da transgressão do seu próprio filho, porque algo se está transformar neste, e não deseja, porque não dá conta em gerir os seus sentimentos, e o pretende preso ao seus princípios de formação familiar, não permitindo a liberdade à criança para escolher o seu próprio caminho.
Afinal ele também precisaria de um Filipão para o educar.

Olhamos as crianças correndo atrás de uma bola, dizemos que estão a brincar, mas na realidade o que isso significa? Olhamos, mas não observamos porque existe aquela necessidade de esbanjar energia, nem conseguimos entender o que o jogo pode dar à criança, e só quando nos debruçamos numa tentativa de reflexão vamos encontrar algumas respostas e começamos a ficar surpreendidos, porque o jogo é muito mais que o próprio jogo.
A primeira realidade prende-se com a necessidade do movimento, que tem a ver com a renovação de energia corpórea, é nesta constante renovação que o corpo se sente bem, não sobrando tempo para fazer outras traquinices, porque cansado e esgotado, deseja o repouso para recuperar as energias.
Percebe-se então, que é uma necessidade a descarga de energia, e que após uma pausa, o corpo recupera novamente a energia perdida, num perfeito movimento, que podemos considerar de vida.
A repetição constante do movimento, faz com que a criança adquira mais depressa uma coordenação motora e psíquica, é devido a esse mecanismo, o aperfeiçoamento devido a repetição do movimento, que com o treino adequado, a criança evolui na modalidade que escolheu. Ela começa então a perceber, que só treinando, exercitando, fazendo, pode atingir níveis de aperfeiçoamento, que numa relação de imagens, e tomando como exemplo o desporto, pode transferir o mesmo modo de pensar para os estudos e para o cotidiano. Só por isso valeria a pena, as entidades oficiais e não oficiais, investirem em cada bairro das cidades, em espaços que possam permitir às crianças o acesso a atividade desportiva, porque não se trata apenas de trazer ocupadas as crianças, mad dar-lhe motivação r ptazer tão necessário para a vida.
A idéia que a criança tem que aprender, sujeita a uma disciplina rígida, bem comportada e fechada no quarto a estudar, para ser alguém na vida, por vezes mais tarde se percebe que os pais colheram o fruto que não desejavam, porque não entenderam que o tempo próprio das brincadeiras, do jogo, da alegria, do movimento, em que ela se sente feliz, devia acontecer, e que a criança aprende, quando joga e pratica o seu desporto favorito, existindo uma disponibilidade física e psíquica, que lhe permite ser melhor.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Carta a Maitê Proença

Recebido por E-Mail de um amigo

*Antes de lerem a carta da Dra. Mafalda Carvalho, Professora Doutora da
Universidade de Coimbra, endereçada à Maitê Proença, algumas observações**
sobre as razões da missivista:

1) Maitê Proença disse no programa "Saia Justa" umas gracinhas sobre a
inteligência dos portugueses. Fez comentários descabidos sobre a História de
Portugal, sobre tradições portuguesas que ela desconhece, sobre o estuário
do Rio Tejo, reduziu Sintra a uma vilazinha, criticou e ridicularizou o
atendimento a seu PC pelo pessoal do hotel onde estava hospedada... e por aí
afora.

2) O programa passa em Portugal e causou um grande mal estar lá na
"terrinha".
Quando foi execrada pelos portugueses, no seu pedido de desculpas ainda
disse que o povo Português não tem senso de humor. **Que foi "apenas" uma
brincadeirinha.*

*3) É o que dá quando a pessoa fala sem conhecimento de causa. Esta
professora portuguesa além de escrever muito bem, acabou com a Maitê
Proença e de quebra, com os nossos representantes em Brasília, protagonistas
de um vasto anedotário.**

4) Leia até o fim, pois a postura da Professora é excelente e nós..... temos
que ficar caladinhos.... É isso que dá, alguém despreparado emitir
conceitos sobre assuntos que não domina, com apoio dos alienados das redes
de TV Brasileira, que se consideram o máximo em cultura ..

5) E temos que engolir calados e com humildade o desabafo dessa senhora
portuguesa, generalizando e nivelando todos os brasileiros. Mesmo porque ela
não diz nenhuma inverdade.

6) A que ponto chegamos! Não temos mais nem o direito de nos indignar.. Pobre
Brasil! É o declínio moral de uma Nação.

CARTA-RESPOSTA DE UMA PROFESSORA E DOUTORA PORTUGUESA PARA MAITÉ PROENÇA

Exma. Senhora:
Foi com indignação que vi a ‘peça cómica’ que fez em Portugal e passou
no programa Saia Justa em que participa. Não que me espante que o tenha
feito – está à altura da imagem que há muito tenho de si, pelo que me tem
sido dado ver pelos seus desempenhos – mas sim pelo facto da TV Globo ter
permitido que tal ignorância fosse para o ar.

Só para que possa, se conseguir, ficar um pouco mais esclarecida: A
‘vilazinha’ de Sintra é património da Humanidade, classificada pela UNESCO e
unanimemente reconhecida como uma das mais belas e bem preservadas cidades
históricas do mundo;

Em Portugal, onde existem pessoas que olham para o mouse do seu
computador como se de uma capivara se tratasse, foi onde foi inventado o
serviço pré-pago de telefones móveis (os celulares) – não existia nenhum no
mundo que sequer se aproximasse e foi também o que inventou o sistema de
passagem nas portagens (pedagios, se preferir), sem ter que parar – quando
passar por alguma, sem ter que ficar na fila, lembre-se que deve isso aos
portugueses.

É um dos países do Mundo com maior taxa de penetração de computadores e
serviços de internet em ambiente doméstico. É o único país do mundo onde
TODAS as crianças que frequentam a escola têm acesso directo a um computador
(no próprio estabelecimento de ensino) – e em Portugal TODAS as crianças vão
à escola... Muitas delas até têm um computador próprio, para seu uso
exclusivo, oferecido ou parcialmente financiado pelo Ministério da Educação
– já ouviu falar do Magalhães? É natural que não... mas saiba que é uma
criação nossa, que está a ser adquirida por outros países. Recomendo-o
vivamente – é muito simples e adequado para quem tem poucos conhecimentos de
informática.

Somos tão inovadores em matéria de utilização de tecnologia informática
e web nas escolas, que o nosso caso foi recomendado por especialistas
americanos, como exemplo a seguir, a Barack Obama, que é só o Presidente dos
Estados Unidos – ao Sr. Lula da Silva tal não seria oportuno, porque ele
considera que a Escola não é determinante no sucesso das pessoas (e, no
Brasil, a julgar pelo próprio, tem toda a razão).

A internet à velocidade de 1 Mega, em Portugal há muito que é
considerada obsoleta – eu percebo que não entenda porquê, porque no Brasil é
hoje anunciada como o grande factor diferenciador a transmissão por cabo que
já não nos interessa. Já estamos noutra – estamos entre os países do mundo
com a rede de fibra óptica mais desenvolvida.E nesse contexto 1 Mega é mesmo
uma brincadeira.

O ditador a que se refere – o Salazar – governou, infelizmente, ‘mais
de 20 anos’, mas para a próxima, para ser mais precisa, diga que foram 48
(INFELIZMENTE, é mais do dobro de 20). Ainda assim, e apesar do muito dano
que nos causou a sua governação, nós, portugueses, conseguimos em 35 anos
reduzir praticamente a ZERO a taxa de analfabetos e baixar para cifras
irrisórias o nível de mortalidade infantil e de mulheres no parto onde
estamos entre os melhores do mundo.

Criar uma rede viária que é das mais avançadas do mundo – em Portugal,
sem exceder os limites de velocidade e sem correr risco de vida, fazemos 300
km em duas horas e meia (daria tanto jeito que no Brasil também fosse
assim!).

Melhorar muito o nível de vida das pessoas, promovendo salários e
condições de trabalho condignos. Temos ainda muito para fazer nesta matéria,
mas já não temos pessoas fechadas em elevadores, cuja função é apenas
carregar no botão do andar pretendido – cada um de nós sabe como fazê-lo e
aproveitamos as pessoas para trabalhos mais estimulantes e úteis; também já
não temos trabalhadores agrícolas em regime de escravatura – cada pessoa
aqui tem um salário, não trabalha a troco de um prato de comida.

Colocar-nos na vanguarda mundial das energias renováveis, menos
poluentes, mais preservadoras do planeta; enquanto uns continuam a escavar
petróleo, nós estamos a instalar o maior parque de energia eólica do mundo
(é a energia produzida a partir do vento).

Poderia também explicar-lhe quem foi Camões, Fernando Pessoa, etc.,
cujos túmulos viu no Mosteiro dos Jerónimos, mas eles merecem muito mais.

Ah!, já agora, deixe-me dizer-lhe também que num ponto estou muito de
acordo consigo: temos muito pouco sentido de humor. É verdade. Não
acharíamos graça nenhuma se tivéssemos deputados a receber mesada para
votarem num certo sentido, não nos divertiria muito se encontrassem
dirigentes políticos com dinheiro na cueca, não nos faria rir ter senadores
a construir palácios megalómanos à conta de sobre-facturação do Estado, não
encontramos piada quando os políticos favorecem familiares e usam o seu
poder em benefício próprio. Ficaríamos, pelo contrário, tão furiosos, que os
colocaríamos na cadeia. Veja só – quanta falta de humor. Mas, pelo
contrário, fazem-me rir as sessões plenárias do senado brasileiro. Aqui em
Portugal , e estou certa que em toda a Europa, tal daria um excelente
programa de humor.

Que estranho, não é?

Para terminar só uma sugestão: deixe o humor para quem no Brasil o
sabe fazer com competência (e há humoristas muito bons no Brasil). Como
alternativa, não sei o que lhe sugerir, porque ainda não a vi fazer nada que
verdadeiramente me indicasse talento...

Peço desculpa por não poder contribuir.
*
*Mafalda Carvalho - Professora Doutora da Universidade de Coimbra *

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Sistematização

Quando o quadro está um pouco descaído, por milímetros que seja, o neurótico obsessivo dá logo por isso, e se possível anda com um nível portátil no bolso, para logo aferir, dizendo para o parceiro do lado:
-Eu não disse que estava torto.
E acrescenta; tem uma diferença de um milímetro.
Eh pá, que satisfação.
Finalmente consegui colocar uma coisa, alguma coisa no lugar certo.
O quadro agora está perfeito, semelhante á minha imagem interior, alinhado, quietinho e rígido, que qualquer movimento não o possa perturbar, porque logo fico incomodado, e ansioso para o colocar de novo no mesmo lugar, alinhado.
O nível indica que está tudo no perfeito lugar, mas ainda assim dou três passos á retaguarda, alinho o meu corpo com o quadro, e tento tirar a medida com os olhos.
Não parece que esteja direitinho, mas que fazer, o nível diz que sim, e ele é o instrumento de que me sirvo para garantir a exatidão do alinhamento das coisas.
Ou será que o nível já não é mais nível que preste ?
Tenho que ir á loja comprar um novo.
Faz-me lembrar aquela mãe que vai á parada militar do juramento de bandeira de seu filho recruta, em que todos marcham com passo semelhante, e o Manuel está com o passo atrasado, que quando levanta o pé direito, já todos os outros bateram com o esquerdo no chão, e que diz para a senhora do lado, que todos os outros é que estão com o passo trocado.
Tudo quanto é seu, que consta da sua interioridade e está inscrito nos manuais dos registos psíquicos, é para toda a gente cumprir, mesmo que ele ande com o passo trocado.
Mas vá a criatura saber disso, se ela julga e tem a certeza que o seu menino é que está certo e todos os outros errados.
Parece existir claramente uma identificação objetal, que parte de um desejo, do seu mundo imaginário, proveniente de uma relação rígida e prepotente, que a retirou de uma visão exterior que pudesse levar em consideração.
Faz lembrar aqueles burros a quem o dono colocou uma palas laterais nos olhos, para seguir em frente, o impedindo de olhar para os lados, cuja repetição sistemática, quando nem palas existem mais, continua a fazer o mesmo.
Os objetos da vida real, não podem fugir do padronizado dessa ordem interna, nem que seja um milímetro.
Repetição é apenas um movimento de uma determinada forma que pretende ser objetivada, mas que nada nos diz acerca dos elementos que constituem o núcleo sistêmico, nem a forma como estão organizados.
No mundo das imagens armazenadas na memória, e das idéias que são produzidas, mais não são que outras imagens que se associam, conferindo um sentido, na tentativa do indivíduo perceber a totalidade do objeto.
O rigor pela medida exata, é produzido pela repetição sistemática de um desejo alheio, que proíbe ao indivíduo de enxergar outras formas de percepção, que o impede de olhar para o lado.
Parece existir uma luta entre sistemas.
Para esses indivíduos não parece existir o mais ou menos equilibrado, mas o exato, a matemática, que para eles é só meia noite, quando os ponteiros se unem lá no cimo, em que não se consegue perceber nenhuma diferença entre eles, não obstante serem diferentes.
Ou seja, os objetos exteriores devem manter uma identificação entre eles, e estes devem estar alinhados com a imagem contida na sua própria interioridade.
Existe como uma colagem á moda dos computadores, que aquilo que o operador copia é o mesmo que vai colar noutro lugar qualquer, ao transferir o texto, ou a imagem contida no seu conteúdo programático.
O indivíduo não se apercebe, mas é apenas um ¨ transfere ¨, de uma ordem escrita ou verbalizada, de algo que não lhe pertence, como testemunho de uma formação infantil, que tem que passar aos vindouros e a seus semelhantes.
Se é o testemunho da lei do pai, ou tem algum conteúdo da postura mãe, ou de ambos, são casos que devem ser percebidos no particular, o que importa mesmo é que foi colocado nas mãos do indivíduo o testemunho, cuja finalidade é garantir ao sujeito mover-se na vida de forma autônoma.

Este processo é repetitivo, e o transferir também.
A tendência por isso, vai no sentido do afastamento do objeto exterior, que foi garante da passagem do testemunho, e a conseqüente internalização da lei e suas regras.

Quando os formadores fazem a entrega da cesta básica, transferem também o seu conteúdo, e, é a partir daí que podemos perceber e observar algumas diferenças interessantes.
Eu para os meus filhos não vou ser como o meu pai, ou mãe, que não dava carinho, e ao primeiro não, vinha logo o porrete.
Esta idéia transforma tantas vezes o futuro pai em bobão e afetuoso em demasia.
E eis a surpresa, fez dos filhos o seu próprio pai, porque exigentes, prepotentes, intolerantes e sem regras, tudo exigem, mesmo que seja necessário desenterrar o porrete do avô.
Se na geração do avô, eram os filhos que não piavam, por medo da punição, na geração do pai, são os filhos que mandam nos pais.
Outra conclusão interessante; aquele pai, por ser tão rigidamente tratado, e tantas vezes agredido fisicamente, por desejar ser o contrário, deixa-se maltratar por seus filhos.
É o caso de uma paciente, ainda ativa, cujo pai foi um vilão, que teve de trabalhar duramente para não morrer á fome, conseguindo um razoável patrimônio que colocou em nome das filhas, agora vive atormentada por não ter uma casa em seu nome para morar, temendo o seu futuro.
Desta história resulta, que uns passaram o testemunho verdadeiro de seus pais, e outros, embora poucos, quiseram oferecer a seus filhos, o contrário daquilo que os pais lhe ofereceram..
Desta fornada, nenhum deles conseguiu o equilíbrio emocional, quando confrontados com o mundo exterior.

As circunstâncias da vida encarregaram-se de revelar quanto fora inadequada a sua formação infantil.
Podemos deduzir por isso, que embora tenha existido a mesma base formativa repressiva, tende a emergir variantes, proveniente de um mundo de convicções, mas onde impera a falta de regras.
A quantidade de energia acumulada devido a agressões verbais e físicas, parece ser apenas parte de um fenômeno, de um corpo feito criança, que não tem condição alguma de defender-se, ou sequer fugir.
Existiu uma fase de enchimento de energia, sob a forma de tensão, que designamos por acúmulo, devido a atitudes repressivas, insuflada á força no corpo da criança.
Ela será um balão cheio de ar, sem regra alguma, que não sabe onde e como pode esvaziar o seu conteúdo, que lhe cria um certo mal estar interior.
Ao tentar esvaziar essa energia com os colegas, por exemplo, o tende a fazer da forma como conhece.
E o que conhece, não são regras, mas apenas gestos e verbalizações brutas, que ¨ transfere ¨para o mundo exterior.
O que transfere é apenas energia.
Somos colocados perante o corpo físico, seu estudo e investigação, que para existir serve-se da química.
Existe uma relação e uma interligação, que está para além do corpo físico.
Aquilo que nos é dado a observar encontra-se no plano físico, que funciona através dos sentidos, a que chamamos de consciência.
O que está para além dele são energias com seus transferes, que uns captam, outros não, e tantos outros deixam envolver-se.
A energia é uma forma abstrata derivada de uma relação entre corpos, que era desconhecida do ser humano nos tempos mais primitivos. Por isso ao observar os fenômenos da natureza, julgavam a existência de seres com mais poder, os Deuses, que não se deixavam enxergar.
Hoje todos falamos de energia.
O avanço tecnológico e científico, desbravou o caninho da ignorância, e parte dessa história antiga de Deuses tende a ser esquecida, e perigosamente para alguns, prepara-se o assalto ao próprio Deus, na tentativa de demonstrar que ele não existe.
O pior não é se Deus existe ou não, mas a verbalização do ser humano, que produz a afirmação ou negação da sua existência, cujas conseqüências na relação humana desconhecemos.
Para Deus é irrelevante a palavra do homem, não chegando a molestar conceito algum que possa ter acerca dele, mas serve, de motivo de luta contra o seu próprio irmão.
O povo costuma dizer, que vozes de burro não chegam ao céu.
E porque não chegam ?
Porque é uma ordem da própria natureza, que é imutável quanto a seus princípios básicos, que tende á transformação, embora tão lenta, que é quase imperceptível para o homem, mas seguindo os mesmos princípios e a mesma ordem.
Essa ordem deve ser entendida como sistema, cujos movimentos, que é garantido por uma determinada quantidade de energia, conduzem o ser humano ao sistemático, ou á sistematização.
O sistema é derivado de um desejo corpóreo, que não intelectual.
É devido a isso, que um ser humano intelectualizado, apresenta os mesmos conflitos psíq uicos que outro sujeito qualquer, e tem as mesmas dificuldades em superar esses momentos, que se manifestam por sistema, sistematizados.

Quando falamos de sistemas, estamos a tratar de modos de organização, que para existir deve obedecer a princípios.
Sistematização é o movimento gerado, ou impulsionado através de uma ordem sistêmica.

Porém, a sistematização nada nos diz, quanto a conteúdos, sentidos, elementos ideativos e energéticos que o constituem.

sábado, 5 de junho de 2010

Iogurte na prevenção de doenças

Pesquisadores da USP conseguiram produzir um iogurte que previne doenças coronárias, câncer de intestino e cólon, além de diminuir os níveis de colesterol ruim (LDL), prisão de ventre e intolerância à lactose. A bebida previne as doenças porque agrega além de bactérias típicas de iogurtes três microorganismos que fazem bem à saúde.
A bebida ainda precisa ser patenteada e não começou a ser fabricada. Ela tem textura e sabor parecidos com o do iogurte comum, necessita dos mesmos cuidados de armazenagem e é 30% mais caro. Feito com leite desnatado, também é light e fonte de fibras.
"Não existe no mercado um leite fermentado com um coquetel de benefícios tão grande", afirma o engenheiro-agrônomo Ricardo Pinheiro, que desenvolveu o iogurte durante o seu duplo doutorado, feito na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP e na Universidade de Gênova (Itália).
Iogurtes têm naturalmente as bactérias Streptococcus thermophilus e Lactobacillus bulgaricus, que, juntas, auxiliam quem tem prisão de ventre. Algumas bebidas têm, além dessas, até duas bactérias que, quando administradas vivas e em quantidade adequada, conferem saúde às pessoas (probióticas). O alimento produzido pela USP possui três bactérias probióticas além das comuns a todos iogurtes. Quando elas chegam ao intestino, tomam o espaço e alimento dos microorganismos indesejáveis que lá habitam e os eliminam.
Metabolismo complicado
Para a bebida fazer efeito, é necessário que todas as bactérias cheguem vivas ao intestino e em uma concentração de 10 a 100 milhões de colônias de organismos por mililitro de produto. Por isso, a maior dificuldade em fabricar o iogurte foi conseguir que, em um período de 35 dias, as bactérias não matassem umas às outras ao acidificar a bebida e competir por alimento.
"Manter a quantidade apropriada de bactérias é difícil", diz Pinheiro. "O metabolismo de uma bactéria pode prejudicar outra. As do gênero Bifidobacterium, por exemplo, produzem ácido acético, fatal para os lactobacilos."
Para contornar essas dificuldades, Pinheiro estudou quais nutrientes cada bactéria necessitava e os produtos que excretava quando estavam sozinhas e em conjunto no leite. Concluiu que a melhor solução era adicionar ao iogurte um açúcar chamado inulina, que é fonte de alimento para as bactérias e impede que algumas "morram de fome". Outras soluções foram colocar na bebida quantidades maiores dos microorganismos mais frágeis e envolvê-los com uma goma que os impedia de serem danificadas pelo metabolismo dos outros.
Segundo o pesquisador, o resultado agrada. "O produto é funcional e bastante aceitável ao paladar. Ele é mais caro, porém o benefício que traz é maior."

Fonte: Agência USP de Notícias

Retirado do blog.- metendoobico.blogspot.com

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Psicanalise e Religião

A questão ¨religião¨ para a psicanálise, não deve ser mais ou menos importante, que outras características de índole cultural e lúdicas, pelo que possuo o entendimento, que existe uma avaliação distorcida da realidade, que conduz por vezes a pronunciamentos, e avaliações incorretas.
A discussão da atualidade é semelhante ao tempo de Freud, muito embora com outro envolvimento e características próprias de cada época.
A questão religiosa sempre afligiu os mais inquietos.
É bom que se diga que o assunto não é de forma alguma irrelevante, para não merecer um estudo e investigação mais detalhada, dado que as opiniões divergentes reinam também no seio dos estudiosos da mente humana.

Freud – Vol. XX – Inibições, sintomas e ansiedade, refere o seguinte :

- Eu próprio atribuí um valor mais elevado a minhas contribuições à psicologia da religião, que começaram com o estabelecimento de marcante similitude entre as práticas religiosas ou ritual (1907b). Sem ainda compreender as ligações mais profundas, descrevi a neurose obsessiva como uma religião particular distorcida e a religião como uma espécie de neurose obsessiva universal.

Freud afirma que as suas contribuições para uma psicologia da religião, partiram de um pressuposto de evidências, não tendo em conta que ela é um derivado de formas e ligações mais profundas, em que os seus escritos de totem e tabu, emergem como derivado da aceitação dessa análise inicial distorcida.
Devemos levar em conta que Freud como idealista da psicanálise, era o navegante que percorria mares nunca antes trilhados, que por isso mesmo estaria sujeito a distorções de análise, que aos poucos foi clarificando.
Estamos em presença de um homem que aceitou errar, que não escondeu que é humano e, que por isso cometeu algumas distorções da realidade, como condição evolutiva de uma determinada idéia.
Devemos perceber nisso um mérito, que confere ao sujeito a honestidade, a clareza e a frontalidade, para dar o dito pelo não dito, dado que algo ainda faltava saber, e que na altura lhe escapou.
Parece descartar em definitivo a hipótese analógica, entre neurose obsessiva e religião, e esta, como sendo uma espécie de neurose obsessiva universal.
O que em princípio era dado a uma forma associativa, foi dissociado, percebendo-se que não existe ligação profunda entre ambas, pelo que passou a tratar a religião como um processo separado, de um qualquer transtorno psíquico por ele motivado.
A meu ver, o parágrafo acima descrito é fundamental, cuja finalidade é tentar entender, não as implicações da religião no psiquismo, mas antes, os motivos que levam o indivíduo a refugiar-se nela.
E se assim entendermos, a religião em si mesmo é um produto irrelevante para análise, que não as suas motivações, estas sim, de suma importância, dado tratar-se de sentidos.

Freud refere de seguida:

- Posteriormente, em 1912, a indicação convincente de Jung das analogias de amplas conseqüências entre os produtos mentais dos neuróticos e dos povos primitivos levou-me a voltar minha atenção para aquele assunto.

. A mitologia tornou-se o domínio especial do Otto Rank; a interpretação dos mitos, sua ligação com os complexos inconscientes familiares da primeira infância, a substituição das explanações astrais por uma descoberta dos motivos humanos, tudo isto em grande medida devido aos seus esforças analíticos.

O simbolismo trouxe para a psicanálise muitos inimigos; muitos indagadores com mentes indevidamente prosaicas jamais foram capazes de perdoar a esta o reconhecimento do simbolismo, que decorreu da interpretação dos sonhos. Mas a análise não tem culpa da descoberta do simbolismo, pois de há muito fora conhecida em outros domínios do pensamento ( tais como o folclore, lendas e mitos) e neles desempenha papel ainda maior do que na ‘linguagem dos sonhos’.
É a partir desse momento que existe uma ruptura com os enunciados anteriores, e predispõem-se a estudar e investigar o que foi proposto por Jung e Otto Rank, o que demonstra de forma inequívoca que estaríamos em presença de um homem, que não partia de certezas absolutas, e estaria disposto a enxergar outras perspectivas, através das quais podia ser observado determinado fenômeno.

Acrescenta Freud :

- Em quatro ensaios, enfeixados num livro com o título de Totem e tabu [1912-13], mostrei que o horror do incesto era ainda mais acentuado entre as raças primitivas do que entre as civilizadas e dera lugar a medidas muito especiais de defesa contra ele. Examinei as relações entre as proibições tabus (a forma mais antiga na qual as restrições morais fazem seu surgimento) e a ambivalência emocional, e descobri sob o esquema primitivo do universo conhecido como ‘animismo’ o princípio da superestimativa da importância da realidade psíquica — a crença ‘na onipotência dos pensamentos’ — que está na raiz da magia também. Desenvolvi a comparação com a neurose obsessiva em todos os pontos, e mostrei quantos dos postulados da vida mental primitiva ainda estão em vigor nessa notável doença.

Deste modo, Freud, coloca de lado os seus escritos e idéias anteriores, para dar ênfase a restrições morais, como provenientes de proibições tabus, que é uma condição primitiva, e por isso anterior ao próprio surgimento da religião.
Parece restarem poucas dúvidas nesse sentido.

Em relação ao estudo do totemismo disse o seguinte:

- Meu ponto de partida foi a impressionante correspondência entre as duas ordenações tabus do totemismo (não matar o totem e não ter relações sexuais com qualquer mulher do mesmo clã do totem) e os dois elementos do complexo de Édipo (livrar-se do pai e tomar a mãe como esposa).

Não consigo ter outra interpretação á luz do que está escrito por Freud, do que a mera correspondência entre o primitivo,e aquilo que deveria ser observado para que o complexo de Édipo não emergisse como ideativo psíquico.
Freud nos diz que esse pensamento primevo do filho, de tomar a mãe como sua esposa, que para tal deve livrar-se do pai, está na contramão de um princípio moral primitivo.
Mas nos diz mais, que tais princípios emergem de ciúmes sentidos em relação ao pai, que possui a mãe, para ele tão querida e amada.
Pelo que sou levado a considerar que existe na realidade uma relação entre pais e filhos, que de acordo com uma série de fatores, pode conduzir o indivíduo ao complexo de Édipo, ou pura e simplesmente o levar a ignorar.
E neste ponto, não podemos fugir ao estudo e investigação da relação objetal, que parece de fato determinar a superação, ou não, do complexo de Édipo.
Para ser mais preciso, é na relação, e através dela, que tende a emergir a complexidade psíquica no ser humano, dando origem a múltiplos derivados e aos sentimentos.
Já não podemos falar de um simples ato reflexo, ação / reação, a partir do momento que se intromete o lado afetivo, como algo incorporado como desejo, mas que de todo é proibido.
Percebemos então a presença do recalque e do recalcamento provocado por uma ordem exterior ao próprio indivíduo, que foi transformada em lei.
Devemos desta forma deduzir, que a formação infantil desde o início, que não mantenha uma atitude firme, de separação de uma idéia incestuosa, poderá conduzir a criança para o complexo de Édipo.
A questão a que devemos dar uma resposta, a podemos encontrar nas atitudes formativas, para que essa idéia não surja na mente da criança.
Deste modo, somos levados a considerar o estudo e investigação acerca de estímulos e zonas erógenas que podem ser estimuladas durante o decorrer da formação infantil, devido á relação entre pais e filhos, que impõem um determinado sentido á criança, transformado em desejo, porque prazeroso.
Parece existir uma diferença a considerar, entre o desejo interior do indivíduo despertado através da relação com os pais, que segue seu rumo no psiquismo, e o recalque posterior a essa idéia, como forma impeditiva de ser consumada.
A inexistência desde princípio, de atitudes que não despertem esse desejo pelo o objeto mãe, é que prioritariamente está em causa.
Devemos considerar segunda esta perspectiva, o que cada um de nós possa entender por autonomia da criança, que é conferida pelos os pais.
Não será difícil perceber a complexidade deste assunto, que decorre de uma visão primeva da existência do ser humano, que tem em conta em essência a forma como são sentidos os diversos fenômenos, a incorporação de um sentido no corpo, e seu desenvolvimento posterior, rumo á intelectualidade.

Freud termina sua análise afirmando:

Lançando um olhar retrospectivo, portanto, ao mosaico que são labores da minha vida, posso dizer que comecei muitas vezes e joguei fora muitas sugestões. Algo surgirá deles no futuro, embora eu mesmo não possa dizer se será muito ou pouco. Posso, contudo, expressar a esperança de que abri um caminho para importante progresso em nossos conhecimentos.

Em O Futuro de uma Ilusão exprimi uma avaliação essencialmente negativa da religião. Depois, encontrei uma fórmula que lhe fazia melhor justiça: embora admitindo que sua força reside na verdade que ela contém, mostrei que a verdade não era uma verdade material mas histórica. [1939a, Ensaio III, Parte II (G).]

A questão fundamental, segundo o meu entender, e, é dessa forma que enxergo a questão da religião, é que ela é devido a fatores circunstanciais, como um modo de vivenciar as coisas e o mundo, de uma forma particular ou coletiva, em que a sua importância deriva de fatores de formação infantil, que se encontram a montante.
E para a psicanálise fatores circunstanciais são derivados de sentidos, e de formas culturais adquiridas, que do mesmo modo são reveladoras de um determinado sentido.
Em conclusão, a questão da existência ou não de Deus, não parece que seja passível de discussão em psicanálise, mas sim a lei do Pai Deus, feito homem, que segundo os costumes do mundo Ocidental, a ela o ser humano deve obediência.
Em última análise, não vejo qualquer evidencia que a religião possa conduzir o ser humano á patologia, dado que não é devida a ela que o ser humano padece de um transtorno psíquico.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Passagem

Se ao passar deixarmos um rasto de luz que perdure, já será suficiente.
Dada a nossa pequenez, nada mais podemos desejar.

A revelação

Poema de Kenia Naves

Agradeço o envio de seu poema, a que decidi dar o nome - A revelação.

A revelação

A subida ao sótão realizei
Os arquivos ocultos da história resgatei
Para minha identidade recuperar
Difícil foi a subida
Mais difícil foi abrir a porta
Cruel foi olhar o que existe
Reconhecer a verdade.
Quanta fantasia criei
Para a vida mais doce se tornar
Um caminho perfeito
Com castelos e jardins floridos.
Mera ilusão
A realidade é mais dura
A vida era repleta de traças e cupins
Consumida pela dor e solidão.
Agora só resta perdoar
Romper com o passado
Olhar para a frente
E (re) significar.
Recomeçar, recompor
Renovar, refazer
Reaprender a ouvir, falar, sonhar.
Abandonar as trevas e a tristeza
voltar a sorrir
Tentar ser feliz.