Retalhos de uma vida - Livro do autor do blog

http://www.bookess.com/read/7054-livro-retalhos-de-uma-vida-/ ISBN - 978-85-8045-076-7 Definir um livro pela resenha é um fato que só é possível quando o livro realmente apresenta um conteúdo impar, instigante, sensível, inteligente, técnico e ao mesmo tempo de fácil entendimento....e Retalhos de uma vida, sem sombra de dúvidas é um livro assim. Parabens, o livro está sendo um sucesso. Ricardo Ribeiro - psicanalista

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Suicídio aos 13 anos

Seth Walsh, de apenas 13 anos, faleceu nesta segunda-feira, depois de nove dias na Unidade de Tratamento Intensivo em um hospital de Bakersfield, na Califórnia. Ele sucumbiu após tentar o suicídio por enforcamento no quintal de sua casa, em 19 de setembro, em razão da perseguição e assédio que sofria na escola onde estudava, por ser homossexual.

A morte chocou a pequena cidade de Tehachapi onde Seth morava e estudava, na Jacobsen Middle School. O chefe da polícia local Jeff Kermode decidiu não investigar a morte e afirmou que as crianças choravam ao saber que o amigo tentou se matar por causa de suas brincadeiras. Ele também aponta que a escola não protegeu o aluno como deveria. Até os seus perseguidores não imaginavam que a história poderia acabar em tragédia.

Parentes e amigos lançaram vídeos de apoio ao menino no You Tube. A história do rapaz é apenas mais uma entre as tragédias criadas pelo preconceito e a discriminação contra homossexuais. O funeral de Seth está marcado para esta sexta-feira, e deve ter cobertura da mídia americana.
www.revistaladoa.com.br

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Violação

Mesmo casada vigiava o pai na sua leviandade desmedida, que nos poderia levar a considerar uma santa aliança com a mãe, a quem ele estaria traindo.
Por outro lado dizia que estava apaixonada pelo o pai.
Seria um daqueles casos, em que o seu desejo era estar no lugar da mãe ?
Ou, gostaria de ser seduzida por ele ?
A idéia da traição, a fazia espiar seus movimentos ?
Perguntas, que aparentemente parecem não ter sentido algum, mas que sempre fazemos a nós mesmos, quando não é visível a motivação, que leva a cometer determinadas atitudes.
O fato é que ele perante a presença da filha, insinuando que estaria a perceber suas intenções, refreava seus desejos.
Porque se prestaria ela a ser policial do comportamento do pai ?
Começou a ficar claro, que existia uma reprimenda á postura paterna, e que de certo modo era entendido pelo o pai como punição.
Mas porque a filha o desejava espiar e punir, seria o segredo bem guardado de todo este cenário.
A punição era exercida através do julgamento da filha, muito embora com seu olhar insinuante, e poucas palavras.
O que via no olhar da filha, ou recordava, que o fazia desistir da idéia de seduzir uma mulher ?
Talvez todo este comportamento tivesse uma relação com um medo interiorizado, que cometesse algum ato de violação, mental ou físico, para com uma menina inocente;
Ciúmes do pai ?
Talvez.
Mas existe uma outra realidade que não devemos descartar, e tentar perceber, dado que todos nós vive, mais ou menos debaixo de uma pressão social, devido a seus conceitos, mitos e tabus.
Nem sempre percebemos isso, e muito menos conseguimos determinar o seu peso na organização do psiquismo de cada um, que é sentido de forma particular e diversa.
O medo da descoberta de um violador no seio da família, pode encobrir um outro medo social, que sempre é despertado quando tal acontece, que se liga ao julgamento, que supostamente aquele pai também teria cometido tal ato com seus filhos.
Será que ele fez o mesmo aos filhos ?
Diz a vizinha linguareira.
A verdade é que todos nós somos assaltados em algum momento por essa idéia, muito embora não a verbalizemos.
Em psicanálise sabemos bem que a projeção corresponde a uma interioridade sentida, e que a violação dos filhos neste caso, seria muito provável
Sabemos por outro lado que, quem é violado, apresenta uma tendência para violar, e pouco sabemos do passado desse pai.
Era este medo incorporado que temia, que por um ato de violação cometido pelo o pai, viessem a descobrir, ou simplesmente a suspeitar, que também ela fora vítima de abuso sexual por parte dele.
Como podemos saber quais os sentimentos despertados na altura que aquela criança foi seduzida, e submetida a práticas sexuais ?
E como entender os sentimentos gerados na mulher adulta, que a fez espiar o pai ?
Entre esses dois momentos, o que aconteceu na história de vida desta mulher, que a fez atuar dessa forma, que não de outra qualquer ?

domingo, 26 de setembro de 2010

A vítima

Você diz que tem medo da miséria, que é um fracassado, que nada dá certo, e ao mesmo tempo tenta recusar a ajuda, pensando em desistir da análise.
É como se tivesse uma doença que pode ser curada, em que emerge um desejo interior que o impulsiona a procurar ajuda, e outro que se opõe, que a nega.
Que desejo é esse que nega a si mesmo ?
Somos levados a considerar a existência de duas forças interiores agonizantes, que lutam entre si, embora nenhuma delas saia vencedora, provocando no indivíduo um mal estar, e uma ansiedade desmedida, que conduz o sujeito á exaustão.
A sensação de impotência advém dessa luta, que bem vistas as coisas não levam a lado nenhum, que perante a impossibilidade de deixar de lutar, procura os culpados para tanta agitação.
Nada é como eu quero, desabafa o sujeito.
È o ¨ Eu quero ¨, a que podemos acrescentar ¨ posso e mando ¨, que quando desautorizado, dado que um outro não satisfaz seus desejos, o faz cair da cadeira da onipotência, e estatelar-se no chão, do qual parece ter alguma dificuldade em erguer-se.
Quanto maior a frustração mais intensamente é sentida a onipotência.
A frustração corresponde ao desamparo, ou melhor é equivalente, dado tratar-se apenas de uma sensação, que saindo frustradas suas expectativas, interioriza que o mundo acabou para ele, que deixa de fazer sentido.
A segurança está no outro, por isso o acusa, na tentativa de endereçar a culpa, libertando-se de um sentimento de culpa, recriando a criança vitimizada pelo o desamparo a que foi votada, pelo menos assim julga.
Hoje venho dizer-lhe que não estou bem, quero ficar sozinho, e que a análise fica para a semana que vem.
Faça favor de entrar, ou por acaso não quer honrar seu compromisso ?
Entrou, não a contra gosto, dado que nem sequer insistiu, e não mais falou da sua indisposição momentânea.
São estas atitudes que dá que pensar, e que nem sempre são de fácil leitura.
Porque necessitaria do meu mando ?
Porque não contrariou a minha voz de comando ?
Porque a segurança e o poder está no outro, que não nele, que tem necessidade de observar para sentir-se seguro e tranquilo.
Sentiu-se amparado.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O mito filosófico da dor

Ao longo dos séculos foi criada a sensação nos seres humanos, que tem que existir dor para o mundo ser melhor, ou, que através da dor o indivíduo aprende a ser mais dócil, ou pelo menos temperado nas suas emoções.
A temperança parece estar na dor, pelo que sem dor, não existe felicidade, nem amor, O sacrifício em prol de qualquer coisa, que alguém disse ser importante, para alcançar a felicidade, é a pedra de toque, senão de toda a filosofia de vida, pelo menos de grande parte dela.
Mas curioso é constatar que a dor, pressupõe a existência da ofensa, da agressão, seja verbal ou física, da perda do sentido de vida, emergindo o sentido de morte, como prenúncio de uma morte física anunciada.
A partir da inevitabilidade da morte física, alguns senhores construíram fantasmas para nos atormentar a vida, nos acenando constantemente com o espectro da morte.
Como não pensar nela ?
Se a morte é o castigo, a punição, para quem está vivo, e deseja viver, o diabo e os fantasmas, são a morte virtual, que tende a tomar o corpo do indivíduo.
A dor que é expressa no corpo, apresenta a particularidade de prevenir o indivíduo de que algo está a ofender o corpo, pelo que deve tomar as devidas precauções, para que possa ser levado a cabo um processo de evitação.
Mas como evitar uma perda ?
Como evitar ser agredido ?
Se falarmos na relação do indivíduo com o mundo e os objetos exteriores, ele sabe muito bem como evitar a dor, mesmo correndo alguns riscos.
Mas como evitar a dor, enquanto criança, que se sujeita a um poder superior, seja mãe, ou pai, que tenta infligir a dor ao seu rebento, cuja finalidade é quebrar a sua energia, o vergando á sua própria vontade de poder ?
À criança não restam alternativas. O mesmo já não poderemos dizer do adolescente, ou do adulto.

Desse modo repressivo, nos é dado a perceber que a felicidade da criança só é conseguida quando desiste da idéia, a favor de uma alheia, a dos pais.

Como o indivíduo foge da dor, como o diabo foge da cruz, aprendemos desse modo a fazer a vontade do outro, deixando para trás todos os nossos desejos.
Você agora está feliz, sem dor, e os momentos de felicidade regressam aos poucos, muito embora seja um dependente e submisso, que para o caso não tem importância alguma, o que importa mesmo é a conversão, sujeitando o outro á nossa vontade.

A dor como tentativa de sublimação não existe.

Dor é apenas dor, física ou psíquica, sem nenhum outro significado, indicador de um certo mal estar, como algo estranho sentido no corpo, que por ele é expresso.
Se o ser humano aprender a amar, através da dor, o que será desse amor, e de onde ele provém, senão de um ressentimento gerado pelo o mal estar, ou pelo ódio, que na impossibilidade de viver sem amor, o deseja de qualquer forma.
Mas se nos recordarmos do objeto primevo que nos deu amor, a mãe e o pai, entendido como afeto, como sendo o mesmo que nos afetou na carne e na alma, somos adultos feitos crianças, que trazem dentro de si, o amor e ódio, que tende a transportar para as futuras relações.
Constatamos então a dificuldade de fragmentar, o que se tornou inteiro pela via da formação infantil, em que na mesma pessoa coexiste o amor e o ódio.

Os pais fragmentaram o que estaria inteiro, desdobrando a organização psíquica, em que de um lado estão as coisas boas e desejadas, e do outro, as ruins não desejadas.
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Como os fragmentos, restos de um corpo inteiro, não podem ficar separados, a não ser no imaginário, são colados, associados, formando um corpo diferenciado do primeiro, mas que se tornou inteiro de novo.
Assim, o corpo é a reprodução, não só da genética e da biologia, mas também a reprodução de uma formação infantil, que é incorporada constituindo-se em lei.
Desse modo, o ser humano é constituído pelas coisas boas e ruins, quando se pretendia ser apenas invadido pelas coisas boas, que fariam dele um ser humano exemplar.

O que fazer com a dor ?
È o que ocorre de seguida.
Aí, cada um apresenta uma forma particular de sentir e entender as coisas, que leva o sujeito a ter determinadas atitudes, que podem ser semelhantes, ou até mesmo opostas.
Nesta altura sobe a palco a dialética, tentando justificar o ato, mediante os pressupostos da vingança, da retaliação tantas vezes, em que se evidencia o poder reativo, provocado por uma infância infantil onde teve lugar a agressão física ou verbal.

Mas o que é a dor ?

Não será apenas um sinal do corpo, proveniente de uma agressão física ou mental ?
Quando a sociedade e os filósofos não conseguem separar a morte física dos acontecimentos psíquicos, nos estão a dizer, que estamos mortos, muito embora vivendo.

Quando nos dizem que uns envelhecem bem, e que outros, o envelhecer é para eles um tormento, do que estão a falar ?
Provavelmente de uma morte anunciada, de que não sabemos a sua origem, em que os aspectos circunstanciais são desprezados, a favor de uma dialética do sentido de vida e morte, que não tem tradução objetiva.

Nos querem fazer crer que objetivamente aquilo que nos atormenta é a morte e a finitude, e que por isso estamos condenados, entenda-se condicionados, a pensar nela o tempo todo, em que o sentido de morte supera em muito o sentido de vida.

Será mesmo assim ?
De tal forma de pensar, nasce a convicção que o ser humano é a única espécie ao cimo da terra, que sabe que vai morrer um dia, retirando aos seres vivos a possibilidade de fazer tal dedução, perante a visibilidade da morte de seus companheiros.
Na prática podemos observar mediante alguns gestos animais, que isso não é verdade, perante o horror da possibilidade da morte.
Para que serviria então a agressividade animal, senão para fugir da morte anunciada ?.

Talvez seja a partir dessa dor, que lhe é garantida pela visão prometida da morte física, e da perda do objeto de afeto, que provoca no ser humano o cepticismo de uma vida sem sentido, porque refugiado debaixo daquele que lhe promete a salvação.
Já não é a dor que faz sentido, mas o objeto que a provoca, que tem de ser adorado, para deixar de sofrer a agressão física ou mental.
Assim era nos tempos primitivos.
E assim continua nos tempos de hoje.
Como se não fosse possível um parto sem dor, daí nascendo um degenerado e malfeitor.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Don Giovanni - José Saramago

¨A minha idéia é que Don Giovanni, ao contrário do que sempre se diz, não é um sedutor, mas antes um permanente seduzido.
A simples presença de uma mulher perturba-o ¨.

É certo que Don Giovanni é um fraco com as mulheres, mas ¨ compensa-o ¨ bem com a sua força ética no momento em que é tentado pela facilidade hipócrita do perdão.
Don Giovanni, o sujeito imoral por excelência, é um homem fiel á sua própria responsabilidade ética.
Fiel á sua posição fundamental nos confrontos com todas as ¨ verdades ¨ constituidas.
A única maneira de ¨ vencer ¨ Don Giovanni é negar, contra toda a verdade, as suas vitórias amorosas.
Don Giovanni é um mentiroso, não seduziu uma única mulher.
Este texto o podemos encontrar a pág. 95 – do seu livro – Don Giovanni ou o dissoluto absolvido.

Neste pequeno trecho do seu livro, podemos retirar material suficiente para uma análise mais profunda, daquilo que podemos entender por ser humano, seu pensamento e organização psíquica, que cada um garante aos mais diversos assuntos.
Não existe o homem puro, dado tratar-se de uma impossibilidade, como a perfeição que pode ser perseguida, mas nunca alcançada.
Existe de fato um homem mesclado, em que são evidenciadas contradições e convicções, ancoradas em desafetos e afetos.
É esse modo afetivo em permanência, que Saramago trata como necessidade assumida por Don Giovanni, que de sedutor passa a seduzido, como se fosse um encanto, que na realidade percebemos tratar-se de uma obsessão psíquica.
A sua imoralidade face á sociedade de então, proveniente de suas relações afetuosas e sexuais com muitas mulheres, não o impede de recusar o perdão que lhe é proposto, mantendo-se fiel aos seus desejos mais íntimos, arcando com essa responsabilidade ¨ ética ¨.
A moral e imoralidade passeiam juntas na interioridade do ser humano.
Ou, apenas será imoral, porque a sociedade assim o determina ?
A última parte deste texto, é para mim fundamental, dado que é a tentativa de derrubar toda a estrutura de organização psíquica de Don Giovanni, roubando-lhe as vitórias amorosas.
Saramago percebe, que Don Giovanni passaria de forte a fraco, de um ser que teve vida, para um homem sem vida, em que a obsessão não o deixaria viver de outra maneira, ficando desse modo esvaziado de uma forma de sentir as coisas e o mundo, que assim sendo não faria qualquer sentido.
Don Giovanni não poderia negar a sua própria vida, nem as mulheres que a garantiram.
Podemos perceber como é relevante para o ser humano os objetos, as suas conquistas, que uma vez perdidos, ou colocados em causa, é gerador de conflitos internos exacerbados.
A recusa do perdão, será pois a recusa de um sentimento de culpa, face ao afeto, e á relação sexual, que, no caso de Don Giovanni, não é sentida como imoral, mas percebida como coisa normal da vida.
O que parece que Don Giovanni nos quer dizer, é que aquilo que é próprio da natureza, não pode ser motivo de culpa, por conseguinte não merece o perdão.
Nestas condições a ausência de um sentimento de culpa não poderá ser entendido como algo que possa conduzir o ser humano ao transtorno psíquico, e como tal não poderá servir de baliza para determinar seja o que for, sem que possa ser entendido num determinado contexto.
O ser convicto, mesmo a prepotência e a intolerância, nem sequer a meu ver, podem ser entendidas desse modo, mas apenas condições incorporadas, que podem ser frustradas devido ás circunstâncias, emergindo de uma relação a possibilidade do ser humano ficar transtornado.
Consideremos então, que tudo quanto é próprio, e dado ao ser humano não funciona como verdade absoluta, mas apenas como possibilidade, que outras formas relacionadas, pode provocar a instabilidade emocional no sujeito.
É um cenário provável, não a todo o momento, mas em momentos que são determinados pelas circunstâncias, em que a capacidade de adaptação a novos cenários, é o ponto vital da mutação, que só parece apresentar uma finalidade, a satisfação, o bem estar interior.
A culpa nestes casos funciona como travão á mutação, provocando um estado de estagnação, posicionando o sujeito no conflito, colocando em dúvida os seus atos, ficando fixado nas imagens passadas julgadas impróprias.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

inconsciente

Problemáticas IV
- O inconsciente e o ID –
· J. Laplanche
Autor do livro – Martins Fontes

Os dois modos de escuta. As lacunas do discurso consciente.
A noção de formação no inconsciente.

O inconsciente na análise, não se revela de forma homogénea, mas posiciona-se por debaixo daquilo que é manifesto.
Nem é encontrado num segundo nível, que acompanharia de forma contínua os atos ou as palavras manifestas, mas há sempre alguma coisa que se revela em pontos particulares, a que se poderia chamar pontos de carga, é o que decorre especialmente da noção de ¨ formações ¨ do inconsciente, ou da imagem das lacunas, na medida que essas formações – pensemos num lapso que se intercala numa conversa ou numa aula – provocam uma ruptura num texto que, por outro lado, pretende ter certa coerência.
Se o inconsciente não está em toda a parte com a mesma densidade, se ele não está presente como um texto paralelo, o que seria a significação inconsciente do que estou realmente dizendo, mas aflorando aqui e ali
como uma falha do meu discurso, então significa que ele tampouco pode ser escutado e decodificado – como expressei naquele texto - ¨ em simultaneidade ¨.
Fim de citação.

Procuro e não te encontro, seria a frase ideal para definir essa tentativa de busca do inconsciente.

Se ele não se encontra no discurso, nem na decorrência de um processo analítico, de forma homogénea, se por outro lado, não o encontramos num segundo nível do discurso, que é sempre futuro, o que podemos deduzir, se, tal como diz Laplanche, nem tampouco pode ser escutado e decodificado ?

Porque sentido não pode ser escutado e decodificado, mas apenas sentido, quando o indivíduo não consegue definir de onde é proveniente tal sentido.

sábado, 18 de setembro de 2010

Sarkozy

Sarkozy
- O poder mudou de lugar.

Era suposto, dada a evolução tecnológica e científica, a produção de conhecimento e os meios de comunicação ao dispor do ser humano, que poderia existir uma forma diferenciada de pensar, relativamente a homens como Hitler, Estaline, Bush, ou a qualquer bárbaro de que reza a história.
Era suposto, dizia eu, mas não, o que podemos observar, se a isso podemos considerar evolução, é quanto ao métodos utilizados, que antes não existia qualquer sentimento de culpa por declarar a guerra, perseguir e matar todos aqueles que não pensavam como eles, e hoje o poder político serve-se do legislativo, e da manipulação da opinião pública, para levar por diante a sua vontade de poder.
A democracia ainda é uma versão ¨ light ¨ do totalitarismo de antigamente.
Da matança da inquisição, que é posterior á degola dos inocentes, surgiu Hitler, com a mania do idealismo racial, que todos sabemos bem como terminou, mas que a maioria não sentiu na pele os efeitos dessa verborreia mental, constatamos nos dias de hoje, que alguns andam entretidos com as vestes dos outros.
Não obstante tantos exemplos, em que a tentativa de exclusão de formas culturais, religiosas e raciais, deu lugar ao extermínio, continuam os senhores da guerra em democracia a alimentar o mesmo tipo de pensamento.
Disse, o mesmo pensamento, e não a mesma forma de agir, porém, o que podemos constatar é que por gestos e palavras ¨ malditas ¨, o efeito produzido parece ser o mesmo, muito embora gerando conflitos menores.
A triste conclusão a que podemos chegar, é que aquilo que é condenável e condenado, é atentar contra a vida do semelhante de forma violenta, quando não existe arte e engenho para a coberto de uma ¨ boa ¨ razão invadir um país alheio, e levar a morte e a desgraça a casa dos outros.
Os resíduos colaterais, pensamos nós, são algumas mortes deste lado, exterminando o opositor, exaltando o patriotismo, que tende aos poucos a desvanecer-se, quando as famílias começam a receber os caixões, os inválidos e os transtornados, em que o avolumar da tragédia aos poucos vai causando algum mal estar na opinião pública.
Ao fim de alguns anos, revelando toda a impotência de uma nação, antes poderosa, a maioria começa a inverter a sua posição inicial, e já pede a todos os santos e a Deus, que a guerra acabe.
A ilusão de um poder. Poder, que nenhum país parece ter, o podemos observar na debandada das tropas invasoras, deixando atrás de si um rasto de destruição, sofrimento e muita dor.
Mas como começa uma guerra ?
Pela formação de guerrinhas que alastram até tomar uma proporção tal, que já ninguém consegue segurar, porque recuar não parece que seja possível, em que a paz tende a revelar-se quando fartos de sangue, e nada mais resta, que possa ter importância.
E como começam as guerrinhas ?
Através de idealismo tolos, como aqueles que tiveram homens que conduziram a humanidade pelo o caminho da destruição.
Os fenómenos desencadeados são os mesmos, embora com outra intensidade.

A palavra chave, no meu entender, que deve presidir a todo o processo formativo e á relação humana resume-se deste modo – Respeito e consideração pelo o outro.

Tudo o resto é paliativo, retórica, dialética, na tentativa de justificar um ato de agressão, de violação, ou um sentimento de posse exagerado de idéias absurdas e valores engendrados, como os melhores.

O mesmo será afirmar que todo aquele que exerce uma pressão sobre o outro, seja qual a forma, na tentativa de o vergar á sua vontade de poder, o desrespeita, e não o considera como um ser humano, que possui a liberdade de ser tal como é.
Retirando o poder reativo, que é legítimo em caso de defesa de sua própria vida, não podemos descortinar outros motivos, que possam conduzir o ser humano a atitudes reativas, repressivas, de violação, e até mesmo violentas.

Só que a repressão, a violação, e a agressão geram ressentimentos a quem é dirigida, e disso parecem esquecer os senhores da democracia, que de vez em quando recebem o troco em forma de terrorismo, que engole inocentes, como aquelas balas perdidas, que encontram alguém pelo o caminho.

Quando a França ficou destruída pela segunda guerra mundial, a reconstrução foi dolorosa, ganhando novamente vida, não só através de suas gentes, mas também com milhares de emigrantes, que fizeram da França o país desenvolvido de hoje.
Claro, que ninguém questionou nessa altura, argelinos, turcos, portugueses, árabes, ateus e fariseus, porque era tempo de reconstrução e evolução, de desenvolvimento.
Antes, fraco deixou-se invadir por pessoas oriundas dos mais diversos pontos do planeta, com costumes culturais e religiosos diferenciados, que serviram a um certo desenvolvimento, hoje, fortalecidos, questionam o véu islâmico, que não de grinalda, mas que vem dar no mesmo, porque ambos são símbolos sagrados, que o legislativo de França tenta proibir.
Aliás, tal tentativa já vem desde 2001 ganhando força.
Julgam-se agora suficientemente fortes para exercer o seu poder repressivo, tentando exterminar, o que antes não foi colocado em causa, vá lá saber porquê, ameaçando com
prisão o marido, que obrigar a esposa a usar o referido véu tapando o rosto.
Acena a bandeira da dignidade da mulher, decerto francesa, obtendo do outro lado como resposta, a virulência do discurso religioso, chamando de adúltera a sua esposa atual.
Senhor Sarkozy como vai a violência doméstica no seu país ?

O mundo ocidental é detentor da verdade e da razão, eles, os islâmicos, são o podre da maçã, que é necessário extirpar.
Qual a diferença dos tempos de Hitler para os de hoje ?
Apenas a guerra ostensiva contra o mal que era necessário extirpar, que hoje é processada através da linguagem, e do uso do legislativo.
O pensamento é o mesmo.
Ora, deixai os pobres de espírito curar as suas maleitas, enquanto nós curamos as nossas.
A tentativa de diferenciação entre o bem e o mal, que parece ter novos protagonistas substituindo o policial americano, pela união Europeia, em que do mesmo modo julgam ser os detentores da verdade, e lhes assiste a razão de passear pelo o mundo sonhado por eles, á sua imagem e semelhança, tentando os demais, a seguir suas ¨ idiotices ¨, que vale sempre uma bomba, algumas mortes, e muita agitação social, para tudo continuar como antes.
Com suas atitudes garantem a eternização da guerra.
Tal diferenciação entre o mal e o bem, entre a dignidade, o que é digno, e aquilo que é supostamente indigno, dado que tapar a totalidade do corpo, ou praticar nudismo, ou suruba, devemos considerar casos extremos, que por isso mesmo, quem é intolerante e prepotente, posiciona-se sempre de um dos lados da barricada, tentando derrotar o outro lado.

Esquecemos porém, que a mulher islâmica é tão digna quanto qualquer mulher, mediante seus próprios costumes culturais e religiosos.

Um dia, se for caso disso, ela saberá dar a resposta adequada, como o fizeram a juventude nos anos sessenta, e mais tarde a mulher, com seus movimentos de liberdade feminina.
O mundo precisa de tranquilidade, de gestores de um poder público, que coloquem ao serviço da sociedade todo o saber produzido em ciências humanas, e não de benfeitores, e muito menos de manipuladores da opinião pública, sempre ávida por poder.

Você saiu em defesa dos seus valores, e os outros vão ficar apavorados perante todo o seu poder ?

Esse tem sido o calcanhar de Aquiles dos homens que exercem o poder, por ingenuamente considerarem que podem mandar nos costumes e na religião alheia, em que a resultante, como podemos observar através da história, é a guerra e a miséria, em nome do amor e da paz.
Não sei que amor será esse, que se serve da violação dos costumes culturais e religiosos.
Não sei que paz será essa, que só conduz o ser humano á guerra.
Mas vós, de saber mais elevado, nos querem fazer crer, que só através da guerra é possível chegar á paz e ao amor entre os homens, tal qual os homens das cavernas.
Não sei do que falam, mas tento entender porque o fazem.
Vós não cabeis no terno e gravata, que lhes enche o peito de uma lufada de poder, que apenas será uma sensação, quando observam não ter poder algum, caindo na real, quando os terroristas mandam pelo o ar qualquer estação de metrô, ou terminal ferroviário, semeando a morte.
Mas aí ganha força o ressentimento, e porque cego não enxerga, mesmo vendo bem, intensifica-se a repressão, e a vigilância, que um dia, não se sabe como, nem quando, pode originar um conflito global.
Vós sois fracos, dando a sensação de uma força poderosa, que de fato não existe, em que o abismo é já ali.
Continuem a queimar o Alcorão, mas não esqueçam que existem muitas Bíblias que podem ser queimadas, mas quem se queima na realidade, não é Deus, mas os homens.

Ainda não foi compreendido que devemos ser tolerantes com as tolices dos outros, para que tolerem as nossas.

Haja Deus para aguentar tudo isto.