Retalhos de uma vida - Livro do autor do blog

http://www.bookess.com/read/7054-livro-retalhos-de-uma-vida-/ ISBN - 978-85-8045-076-7 Definir um livro pela resenha é um fato que só é possível quando o livro realmente apresenta um conteúdo impar, instigante, sensível, inteligente, técnico e ao mesmo tempo de fácil entendimento....e Retalhos de uma vida, sem sombra de dúvidas é um livro assim. Parabens, o livro está sendo um sucesso. Ricardo Ribeiro - psicanalista

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O discurso do contra gozo

Tantas vezes dou por mim a pensar, de que vale tantos anos de estudo em psicologia ou em psicanálise, para depois abrir as páginas de um livro, de um jornal ou de uma revista, e ver reproduzido o discurso, que qualquer pessoa comum, seja letrada ou não, também verbaliza.
O que de fato tais disciplinas deram a todos aqueles que se dedicaram ao seu estudo ?
É aceite como verdadeiro o fato do indivíduo escolher psicologia ou psicanálise, cuja primeira finalidade é a procura da sua própria cura, ou pelo menos, a tentativa de refletir acerca da complexidade da mente humana.
O que cada um descobriu não sei, mas a maioria tem tanta certeza do seu saber, que ao falar e escrever, nem se apercebe que repetem as mesmas coisas, que o vulgo homem de família que nunca estudou.
A proposta parece ser sempre a mesma, a negação do gozo, que para uns vale a perda de tempo frente á TV a ver o Big brother, o que para outros é pura alienação.
Esta conversa a podemos observar á mesa do café entre amigos, ou simplesmente conhecidos, mas também a podemos visualizar nos escritos e na verbalização de gente, que é comprometida com o mais saber.
Se após tantos anos de estudo, o que resta é a definição do bem e do mal, devo considerar que estamos a lidar com o mito da razão, ou com o mito da verdade que essas disciplinas, possam contribuir para que o ser humano possa ser um pouco mais feliz.
Vire e mexe, estamos mergulhados nos clássicos – Platão, Aristóteles, Sócrates, voltando ás origens da filosofia, desejando aprender ou descobrir alguma coisa, como se existisse uma falta, que sentimos no nosso interior, mas não sabemos definir.
Vire e mexe, estamos ás voltas com Freud e Lacan, extraindo algumas frases, que se tornaram célebres.
Por mais voltas que possamos dar, parece que existe o irresistível retorno ao princípio.
Se descobrir o princípio da vida é coisa para Deuses ou profetas, os princípios a partir dos quais Platão ou Freud construíram as suas teorias filosóficas e psicanalíticas, encontram-se escritas, o que não deveria suscitar dúvidas.
Como diz um amigo meu, tudo fica por conta da interpretação.
Ponto final está explicado, qualquer que seja a interpretação ela é válida.
Então, para quê estudar anos a fio todos esses princípios filosóficos e psicanalíticos ?
É a pergunta que faço a mim mesmo.
Se não descobrimos nesses homens algo importante que nos sirva para transformar a maneira como se formam e educam os nossos filhos, para que servirá o estudo ?
Mas se não a encontrarmos, apenas estamos a alimentar o que está definido como padrão da sociedade, e para isso não seria necessário perder tantos anos da nossa vida a estudar.
Bem vistas as coisas, nos fizeram acreditar na beleza de disciplinas, como transformadoras, quando no fundo parecem servir para sustentar uma certa ordem, que não desejamos perder.
É obvio que recuso pensar dessa maneira.
Mas também é verdade, que a minha tarefa não parece ser nada fácil.
Quando existe algum gozo, vem logo o " mestre " e afirma que aquilo não pode ser considerado como tal, ou seja, só posso gozar se der gozo ao outro.
Mas ninguém pergunta, qual o gozo do outro, quando me vê gozar como ele goza.
Para ele, gozar o seu gozo, é sinal de afeto e identificação.
Mas como não gozar como ele goza, pode ser entendido como afetação, quando na realidade não o estou a afetar ?
Simplesmente o incómodo de perceber em mim uma outra forma de gozar, transmite-lhe a sensação de um certo mal estar.
Que sensação estranha essa, que o ser humano sente o incomodo, por algo que na realidade não o pode incomodar ?
Incomodado com minhas calças rosa, o meu penteado punk, a gravata colorida, a minha forma de andar, o homem sente-se agredido e reage, como se fosse objeto de sua finalidade.
O que ele deseja de mim, sem que eu saiba ?
Não sei.
Tal atitude não constitui qualquer aberração, apenas eu sou a perfeita aberração humana, porque não me apresento tal como ele desejaria.
O conflito começa aqui. Quem manda em quem ?
Porque muitos de nós não podemos estar como desejamos, porque outros sentem que estamos de uma forma que eles não conseguem entender.
Não restam dúvidas, tais personagens só se entendem a si mesmo, e exigem que todos os outros o entendam.
Não se trata somente de identificação de sentimentos, a não ser em última instância, como forma de procurar o equilíbrio entre forças estabelecidas no terreno, os chamados grupos inseridos na sociedade.
Trata-se antes de averiguar o que leva o ser humano a sentir essas forças com tamanha intensidade, que pretende que todos os outros sigam os seus exemplos.
Não se trata de restringir o gozo, mas antes gozar, alimentando-se a si mesmo, sem desrespeitar e desconsiderar o outro, que tem uma forma diferenciada de gozar.
A falta de equilíbrio emocional estabelece-se, não porque as forças em presença sejam mais ou menos numerosas, mas sim porque tal equilíbrio foi promovido na infância, através de uma formação intolerante, prepotente e repressiva, que uma vez colocado o indivíduo perante uma realidade exterior diferenciada, provoca nele a instabilidade.
Não é o aqui e agora que temos de resolver, porque só a guerra consegue resolver a contenda, que não os conflitos, dado que eles tendem a permanecer, mas empregar as nossas energias e o dinheiro dos impostos na formação familiar, como condição fundamental para que ao fim de duas décadas possamos sentir os efeitos.
O resto é paliativo, e a luta só alimenta aquilo que desejamos erradicar.
A diferença do discurso que tem em conta os princípios da psicanálise, mesmo erguendo a bandeira de Freud, é que o gozo é para ser vivenciado, e como teórico, deve afirmar como e em que condições o sujeito o pode fazer, em que a sua negação, é entendido como bloqueio, apresentando como consequência o transtorno psíquico.
O limite o vamos encontrar no outro, e quando os pais e os chefes de Estado não têm limites, decerto os filhos não o terão.
Parece que a reclamação já foi transferida do homem da rua para os terapeutas, o que quanto a mim não é um sinal de vitalidade, mas antes de decadência, dado que emerge uma certa impotência, com algum histerismo á mistura, que denota uma certa instabilidade emocional, a quem se exige tranquilidade e sobretudo conhecimento.
Toda a teoria Freudiana assenta na complexidade do romance familiar e na teoria do recalque como pedra angular da ciência em psicanálise, reveladora de uma pulsão que tende a emergir do corpo de forma involuntária, cuja energia livre ou ligada determina o ato instintivo ou circunstancial.
O mesmo será afirmar que toda energia livre tende a ligar-se a um desejo pulsional. Se este não foi previamente estabelecido pela mente, como dirigido objetivamente, tendo em conta uma série de outros elementos que possam estar associados, tende a ligar-se circunstancialmente de forma disfarçada ou oculta, mas sempre intempestiva.
A proibição estabelece um bloqueio, e parece que até os teóricos não desejam entender o que foi estabelecido como fundamento da teoria Freudiana.
Por isso não é através da afirmação ou negação, que Freud descreve como ambivalência emocional, que o ser humano pode revelar atitudes diferenciadas das que podemos observar atualmente, mas apontando outros caminhos para que tal seja possível.
Apontar os fatos e deduzir resultados, é coisa que não carece de estudo, basta observar, e não me parece que seja próprio de quem estuda e investiga as coisas da mente, que deve pautar-se por princípios biológicos e psíquicos, que se entrelaçam a cada momento, a que o teórico deve dar uma resposta cabal e responsável.
Por outras palavras, o psicanalista não foi formado nem estuda, para discutir sociologia, muito embora a tenha em atenção, nem o momento político, mas para tecer comentários acerca dos vários caminhos possíveis que podemos trilhar para inverter a atual situação caótica de violência e de confrontação ideológica.
É essa ordem pré estabelecida nos princípios da genética, que alguns teóricos pretendem ignorar, e que Platão a seu tempo recordou, como fundamental, para que o princípio de racionalidade possa acompanhar o corpo que sente, revelador do sentido de vida, que confere o sentido ao ser humano de estar feliz.
O que se estabeleceu na sociedade foi a inversão, não de valores, mas de formas que contrariam a própria organização interior de um ser biológico, que não tem condição alguma de estar feliz enquanto permanecerem.
Dos valores todos nós temos conhecimento, o que o ser humano parece que tem dificuldade é em conseguir alinhar esses valores com a sua conduta diária.
Todos sabem que não devem roubar, violar e matar, mas para conseguir realizar seus objetivos não hesitam em transgredir.
Esta é a realidade que a maioria não pretende, ou não consegue enxergar.
O psicanalista não julga, apenas leva o sujeito a entender porque apresenta determinadas atitudes, que não outras que o possam satisfazer.
Não existe uma forma, mas sim diversas que possam satisfazer e realizar os desejos do ser humano.
No fim de contas, temos uma sociedade de insatisfeitos, constantemente á procura de nada, porque esvaziados não podem encontrar o que os possa satisfazer, dado que não se identifica com coisa alguma, que o possa sustentar interiormente.
Esteticamente nos identificamos com determinado objeto, mas quando na sua posse, percebemos que ele na realidade não nos consegue satisfazer interiormente.
Todo o saber acerca de formas exteriores, parece que vira ignorância quando o ser humano é levado a lidar com formas interiores.
Dito deste modo, embora por outras palavras, não estarei a acrescentar mais nada ao que qualquer pessoa sabe e sente, porém, se a elas não lhes é pedido aquilo que não podem, ou não conseguem dar, o mesmo não se passa com todos aqueles que perderam, ou ganharam, anos da sua vida a estudar biologia e ciências humanas.
Não basta o discurso do contra gozo, muito embora ganhe o aplauso da maioria das pessoas, é apenas a realidade que se revela a nossos olhos, que tanto faz estarmos ou não de acordo, não a conseguimos alterar, simplesmente porque os acontecimentos, a que chamamos de fenómenos,não esperam pela aprovação.

Observar a realidade e a julgar, não tem poder algum para a alterar.
Formar e ensinar é a única forma de alterar uma realidade anterior.

Assistimos ao culto de que o gozo é prejudicial.

Somos uma sociedade privada de gozo, por isso transgressora e violenta, que muitos confundem com uma certa forma de gozar, quando parece ser apenas uma resposta / reação contra a proibição do gozo.
O gozo assim sentido está contra a própria natureza das coisas, em que o amor foi transformado em ódio, em que a satisfação é apenas o sentimento de revolta e o grito de liberdade contra o opressor.
A satisfação nessas condições, ou seja, o gozo, emerge como contrapartida á impossibilidade de amar, que na sua forma, oculta a vingança de quem se sente afetado.
Uma vez o ser humano afetado na alma, os sentimentos emergentes tendem a formar uma cadeia, ligando-se a alguns outros, em que pelo o caminho as atitudes que provocaram o sentimento original ficaram perdidas, mas cujo sentido permanece no corpo, como referência para o indivíduo.
O desenvolvimento físico e psíquico provoca a complexidade, que corresponde no fundo a uma síntese de todas as vivências anteriores, que por isso mesmo só podemos observar no indivíduo a resposta através dos seus atos.
O ato que possamos observar, é a vitrine que nos mostra a síntese derivada de uma relação e interligação de atos cometidos anteriormente.
Por outro lado a existência de qualquer ser vivo depende do gozo, ou seja, da realização dos seus desejos, sem os quais tende a morrer.
Se assim entendermos, será fácil perceber que sem o princípio de satisfação, como forma de realização das necessidades e desejos, que determina o gozo, o ser humano sente em si a impossibilidade de viver, e como tal reage, embora de forma inconsciente, cuja finalidade é a preservação da sua própria vida.
Desse modo, o que podemos entender por gozo, é a realização de um desejo, muito embora possa contrariar o desejo de um outro, e provocar-lhe danos físicos ou psíquicos, como forma de vingar a sua própria interioridade.
Em conformidade devemos perceber que um ato cometido no presente, é fruto de um passado, que não sabemos qual foi, e que está ligado a um sentimento original que também desconhecemos, provocado por uma tomada de sentido no corpo do indivíduo.
Daqui nos é dado a deduzir que a amnésia, pode relegar para o fundo do baú imagens de um determinado ato cometido no passado, porque lembrar provoca dor e sofrimento, mas não consegue anular o sentido que foi impresso no corpo provocado por ele.

Não será difícil admitir que a verbalização corresponda a uma forma consciente, que por via da amnésia fica desobrigada de verbalizar em função de um passado, e que por isso mostra uma face contrária ao sentir do próprio corpo.

O ditado popular é esclarecedor do que acabo de afirmar " Olha para o que eu digo, não olhes para que eu faço ".
Neste caso não se trata de ambivalência emocional, mas antes de uma descoordenação, entre uma forma de motricidade e uma forma desejada e pensada, ou seja, psíquica.
Reparemos então, que a coordenação primária, genética, só mantém relação com o movimento do próprio corpo, e o que nos leva a considerar a descoordenação dos movimentos, é quando percebemos que o indivíduo não consegue realizar de forma satisfatória os movimentos dirigidos a objetos exteriores.
Este é o princípio geral, através do qual os corpos se regem, funcionando como lei.
Por isso, admitimos como verdadeiro, que só existindo o alinhamento de todas as formas posteriores com o seu princípio original, os movimentos podem surgir coordenados.
A ausência de formas coordenadas, nos garante a existência de bloqueios, que foram causadores da ruptura, provocando a descontinuidade do movimento.

Significa que o desalinho, que designamos por falta de coordenação, é que conduz o ser humano ao distúrbio e a cometer atos que não estão de acordo com alguns conceitos desejados, decorrentes de um processo de formação e de / ou ensino.
Podemos então entender, que aquilo que percebemos desalinhado segundo uma determinada ordem, não se encontra á deriva, dado que está alinhado segundo uma outra ordem qualquer, pelo que na mente humana não existe o vazio, apenas pode estar esvaziada de conteúdo que possa conduzir o sujeito a uma nova ordem.
Não existe o vazio, porque tudo está organizado, segundo uma determinada ordem, no entanto o que ainda nos falta saber, é como a energia tende a gerir toda essa complexidade ideativa.
O gozo por isso encontra-se no movimento, no experimentar, mas quem leva a criança ao experimento são os pais, como facilitadores de um processo de formação e ensino, que tantas vezes de forma inconsciente, provocam o contrário do que na realidade desejam, em virtude das suas atitudes agressivas e violentas, proibitivas e destemperadas, a levando a tomar consciência de formas abusivas e autoritárias, que vão experimentar mais tarde.
Elas sentiram na carne, que só tiveram direito ao chocolate, depois de levarem porrada, de serem agredidas verbalmente, entre berros e ais de dor e sofrimento, pelo que mais tarde, na adolescência e em adulto quando os desejos afloram com alguma intensidade, e sofrem uma contrariedade, não hesitam em mostrar aquilo que conhecem, a violência.
Pensar que a verbalização pode (re) conduzir o indivíduo á via régia das virtudes, tem constituído o maior erro de analise de todos os teóricos e das pessoas em geral.
De outro modo não é compreensível, que toda a evolução tecnológica que desperta a relação entre as pessoas e o conhecimento, a verbalização e a intelectualidade, não consiga garantir essa recondução.
Continuar a insistir nessa via, arriscamo-nos a fabricar o histerismo coletivo e a psicose, que nos conduz inexoravelmente a formas idealistas e fanáticas, como de resto o mundo de tempos em tempos tão bem conhece, que só conduz a humanidade á sua própria destruição e miséria,
O psicanalista não estudou para verbalizar a afirmação ou a negação de uma realidade, mas antes para ser o instrumento de reflexão, através do qual o sujeito possa rever seus conceitos e princípios se o desejar, percebendo que outros caminhos o podem do mesmo modo conduzir a Roma, ou seja, ao gozo.

A teoria do não gozo, só conduz o homem á doença e á demência.

Aquele que não sabe lidar com o gozo, está descoordenado e desconectado, e é falho de movimentos quanto a essa matéria, mas como não consegue viver sem que ele se faça sentir no corpo, dado que a angústia não pode durar muito, porque pode virar melancolia e provocar a morte, ensaia um movimento descoordenado que lhe permita sentir a vida.
A proibição não gere uma impossibilidade eterna, apenas bloqueia o caminho, que o indivíduo tenta tornear de qualquer maneira, não tendo a noção das consequências, ou as suportando, porque não sabe, ou não consegue, como fazer de outro modo.

É no movimento que se encontra a verdadeira salvação do ser humano.

Mas também é através dele, que tantas vezes encontramos a própria morte.

Entre o estar e não estar,
existe o Ser.
Entre a vida e a morte
Indeciso não escolhe
Deixa-se morrer

Consideremos então que a indecisão, que nos garante a sensação de não escolher entre duas coisas distintas, é uma falsa questão, dado que de modo involuntário, o próprio corpo já traz impressa a sua decisão, o sentido da vida.
A indecisão provocada pela mente, é uma forma provocatória que o contraria, e que uma vez ganhando a dianteira determina o sentido de morte.
A morte será apenas a impossibilidade de ter vida, ou de viver, em síntese, o gozo que foi perdido e não conseguimos ( re ) encontrar.
É no constante ( re ) encontrar o gozo em nós mesmos, que nos faz viver.
A forma como desejamos ter gozo e gozar, é uma outra questão.

Se não existisse o horizonte, a sensação de finitude nos levaria á morte precoce.
Não fora o esforço necessário que promove o movimento infinitamente, teríamos a sensação que todas as coisas podiam ser alcançadas, tudo se tornaria finito, e depressa a morte nos bateria á porta.
É apenas o movimento que nos traz vivos e nos impulsiona a viver, a quietude nos transporta para o além e para a melancolia, que não é apenas aborrecimento ou desagrado, como o tédio que se apodera do sujeito, mas antes o aceitar a sua própria morte interior, como algo que o indivíduo considera perdido que não consegue ( re ) encontrar.
É o movimento que nos transporta no espaço, no qual nos localizamos, determinado por esses dois sentidos, da vida e de morte, cuja única referência possível é dada por outros objetos, que configuram uma imagem, que nos confere a sensação de estarmos restringidos a um espaço, quando ele é apenas uma parte do infinito.
Como dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, todo o espaço disponível, ou seja, não ocupado por nenhum outro corpo, pode ser desejado, o que parece ser razoável, dado que fazemos parte dele, e somente nele nos podemos movimentar.
Repare o leitor, como um corpo pode viver, quando os espaços uma vez ocupados por outros, não apresenta condição alguma para serem ocupados, a não ser através da briga, quando ainda alguém lhe vem proibir de ocupar os espaços disponíveis ?
Como podemos entender a mensagem daqueles que afirmam que corpo, não é corpo que sente, que se manifesta e representa um sentido, como a essência da vida, que por isso deve ser menosprezado, em favor da exaltação do espírito ?
Que espírito será esse de que falam ?
De um espírito divino, que criou o homem com um corpo imperfeito ou defeituoso ?
Que divino podemos encontrar na imperfeição ?
Só a encontraremos na realidade, se desejarmos a pureza e a perfeição acima de todas as coisas, mesmo contrariando a própria criação divina ?.
Ultrapassamos as regras do bom senso e das leis de Deus, para nos posicionarmos para além dele, virando monstros, quando afinal simplesmente somos homens.
A resultante, é que não parece que exista a perfeição ou imperfeição, mas apenas corpos com suas características próprias, que por mais voltas que possamos dar, não conseguimos anular umas em favor de outras.
A perfeição parece estar na aceitação das formas que é própria da sua natureza.

É entre esses dois sentidos, de vida e de morte, que existe a possibilidade de procurar um espaço para que o ser humano, assim como qualquer outro ser vivo, possa viver.

Viver, não é apenas estar vivo, mas criar condições para ser possível a continuidade da sua própria vida, a que designamos por preservação, que implica o mais saber para que tal seja possível.
O mais saber, não deve ser entendido apenas como forma intelectualizada, mas também quanto á maneira de manusear as coisas á sua volta para que o ser humano possa conseguir seus objetivos e realizar seus desejos.
Quantos intelectuais manipulam as palavras com mestria, e são ignorantes, cruéis e intolerantes, no que se refere ás relaçóes com outros seres humanos ?
Os sentidos e os sentimentos, não escolhem ignorantes e intelectuais, porque eles emergem num estágio precoce do desenvolvimento do ser humano, em que todos são semelhantes diante da sua própria natureza, em que a diferenciação posterior só tem lugar á entrada da puberdade.
Os momentos de diferenciação são rupturas provocadas por uma decisão, que o estar contra o outro, implica o sentido de morte de algo contido na interioridade alheia, que para ele funciona como seu sentido de vida.
Tratemos pois, de matar os nossos próprios fantasmas, porque se não o fizermos, eles se agigantam e tentam invadir a casa dos outros, tornando a nossa e a vida dos outros num inferno.
Quando julgamos estar bem com Deus, afinal estamos de mãos dadas com o diabo.
A proibição de extravasar nossas emoções, porque homem não chora, e mulher tem que ser pura e virgem, nos mata por dentro.
Sempre aprisionados nas grades de uma prisão, com nossos sentidos e sentimentos, porque existe alguém, que sempre nos julga como impuros e desprezíveis, nos traz na trela como qualquer cachorro, servindo-se apenas da força das palavras malignas.

A linguagem que serve á relação, em muitos casos serve para a destruir.

A linguagem é um produto humano, que serve não só a relação, mas também aos interesses mais altruístas ou mesquinhos, depende dos sentidos e dos sentimentos de quem a usa.
Assim,também ela deve ser entendida como elemento subjetivo.

Se através do emprego de uma palavra bem dita podemos aconchegar uma alma sofrida, ao proferir uma palavra maldita, podemos acabar com ela.
A alma sofredora pode deixar de sofrer nessas condições, o que ignoramos é o que pode acontecer posteriormente, porque não nos é dado a conhecer a impressão registada no corpo dessa alma.
A alma é o que resta de um corpo que sente e pensa, num mundo de afetos e desafetos, de onde tende a emergir um sentido.
Ela é a resultante de um sentido que resultou da complexidade comparativa de tantos outros, como síntese de um percurso evolutivo do próprio ser humano, entendido como individuo, que não tem capacidade de criar, mas apenas transformar o que se encontra á sua volta.
É por isso que a cada transformação a alma se renova.

domingo, 30 de maio de 2010

Energias deslocadas

Quando enxergo aquele corpo, noto algumas diferenças em relação aos demais homens, que mais parecem gestos de minha mãe, que se incorporou no corpo de uma criança.
No fundo sempre imitamos alguém, aquele que nos dá afeto, ou quem nos afeta, que se transformam em desejos.
Detecto as diferenças no corpo, mas não consigo enxergar para além disso mesmo, a estética.
Algo menos bruto consigo perceber, mais delicado diria, em contraste com a atitude firme da maioria dos homens.
Não porque aquele outro, tenha um andar e um manejo indeciso, mas porque a leveza poética transmite a idéia de uma outra sensibilidade.
Quem habita a interioridade daquele corpo, que o impulsiona a manifestar-se daquele jeito ?
Como ele adquiriu esse sentido, que não outro ?
È uma questão de sensibilidade, dirão alguns.
A sensibilidade não é boa companhia, quando se trata para alguns de corpos estranhos, que o tentam destruir por medo de serem contaminados, ou por não refletir a sua própria imagem, em que as razões morais parecem estar acima do respeito e consideração que os outros merecem, e até mesmo contra a própria existência daquele ser humano.
Ele não deveria existir.
Mas a realidade é que existe e não é de barro, é de carne e osso.
Tenho para mim, que a maior ou menor sensibilidade, emerge de formas repressivas, ou de uma formação sem limites, em que o não compreendido em relação á existência de outras realidades, tende á exclusão de outros sentidos, que devido a isso o ser humano apresenta alguma dificuldade em suportar.
Tal forma de sentir as coisas e o mundo, empurra o indivíduo cada vez mais para o um não desejo.
Agora deu um nó na minha cabeça.
É por desejar, e, tentar realizar os desejos, por mais absurdos que pareçam, que as pessoas adoecem, ou, padecem devido a um não desejo ?
Seja como for, a resultante parece ser a perda de sensibilidade em relação à coisa que não é pretendida, ou, que por ela sente-se agredido, que perante a possibilidade da agressão da sua sensibilidade, torna o indivíduo insensível.
Sobretudo enxergo apenas um corpo que se transformou, tal como todos nós, mas que apresenta traços diferenciados exteriores.
Apenas isso.

sábado, 29 de maio de 2010

O anel que se perdeu

( História real de um amor perdido faz algum tempo )

Meu Deus, porque me abandonaste ?

Repito sempre esta frase quando algo me incomoda seriamente e não sei como resolver, esperando que me possam dar a resposta para devolver-me a paz interior.
Em desespero dirijo-me a ti, em passo apressado entro no cemitério, com os olhos rasos de água, por vezes chorando, mas com esperança, com amor, por seres a única que me compreendes, que sempre me recolheste, e consegues mostrar o que não enxergo, de uma vida que sinto perdida, e com alguma raiva por não estares ao meu lado. O vazio que sinto por vezes, conduz-me a este lugar vazio, onde só as pedras falam e dizem alguma coisa e as flores tentam disfarçar a morte, dando um ar da sua graça. O silêncio que dentro de mim se faz, não é o mesmo deste lugar, que me dá uma certa calma, são silêncios diferentes , embora semelhantes, que sinto de uma outra forma, não porque o seja, mas porque o sinto, ou desejo que seja assim.
Vergo-me e abandono os joelhos na terra, contemplo a foto e teu nome na pedra, a identificação do corpo e da alma, que mora um metro mais abaixo, carinhosamente te chamo vóvó, sendo a referência do espírito materno, que tua filha não quis, ou não soube honrar, porque submissa a um homem intolerante perdeu toda a sua identidade, entregou-se de alma e coração ao cuidar da casa e do marido de forma silenciosa, contendo momentos de raiva, sem um lamento.

Porque estou agarrado ao teu espírito e rejeitei o de minha mãe ?

Sendo sangue do meu sangue, carne da minha carne, não deveria ser assim, mas assim é na realidade.
Honrarás Pai e Mãe. Mas que Pai ? Que mãe ?
A honra não pertence a quem é honrado, mas a quem lhe concede a honra de ser honrado.
Não basta parecer, é necessário ser.
A postura, as atitudes perante os outros é importante para que nos concedam a honra de estarmos e sentirmos que estamos entre iguais.
Tudo parece incomodar-me, tudo me incomoda, mas o que fica são sentimentos que machucam, que agridem, sob a forma de prazer ou das lembranças das imagens que desejo esquecer.

Meu Deus, porque me abandonaste ?

Algo de ti ficou em mim, algo de mim se abandonou em ti, a ideia de que morri, faz-me aproximar de ti.
Sem corpo, a energia que os sentimentos geram, dão-me um pouco de vida, de uma corpo sem vida, embora vivendo, projeta-se no vazio do teu corpo, e sem nada de ti, conduz-me à luz, recolhida que estava nas trevas, sentei-me a teu lado, prisioneira da morte, não me quiseste, mas já morri.
Não me incomoda tanto assim a vida, mas antes a vida sem vida que sinto em mim, e quando não posso suportar a dor no peito, vejo-me neste lugar sagrado, em que a vida, sem vida, ainda consegue alimentar a vida de quem está vivo, marcada que fui a ferro e fogo, te pertenço para além da vida, sem correntes nem amarras, grades ou policiais, sou tua prisioneira.
Procuro o teu colo aqui prostrada, por cima do teu corpo, que a terra se encarrega aos poucos em comer, em transformar noutros corpos com vida, como se os vapores vindos dessa decomposição, me iluminasse, mostrasse o caminho, mas o teu espírito brotado da terra, que o vento pode transportar, não o consigo enxergar longe daqui, morreu contigo, está em ti.
Parece que nunca foi pertença de mim, e só quando não suporto a dor, e o sofrimento me atormenta, eu quero, desejo estar aqui, perto de ti, como se este momento fizesse parte de mim, que me acalma, e te pergunto, como curar a dor que sinto em mim ?
Falo contigo, recordo o teu carinho, as tuas palavras, o aconchego dos teus braços, e, é neste momento, que tudo parece ficar calmo, como se todas as energias se concentrassem nesta união, da vida e da morte, e só aí consigo entender-me como ser humano.

Meu Deus, porque me abandonaste ?
Meu Deus, o que fizeste de mim ?

Cuidaste de mim desde tenra idade, foste a vóvó, que fez de mãe e pai, a vida era dura para eles, trabalhavam sem descanso para o sustento do dia a dia, muito embora entenda que não me esqueceram, deixei de fazer parte da família, de partilhar as suas vidas.
A minha vida era contigo, foste tu que me ensinaste as primeiras palavras, as primeiras letras, a forma de comportar-me, e quando mais tarde, já com sete anos de idade fui para a escola, a minha vida era repartida entre o teu aconchego e a casa dos meus pais.
Comecei a entender a diferença de estar contigo e com eles.
Por vezes faço uma pergunta a mim própria; porque não consigo carregar o teu espírito e o transformar na minha vontade, e venho aqui à procura de ti, para que juntas possa enxergar algo em mim ?
No lugar do espírito, carrego o fardo das angústias, da tristeza e do sentimento de culpa de uma vida que não desejo, mas da qual não tenho força para sair.
Porque sinto a necessidade de estar junto a ti, que nem corpo pode existir mais, para que o teu espírito inunde minha alma, e ganhe energia para partir decidida em fazer alguma coisa por mim ?

Vóvó, o que fizeste de mim ?

Por vezes chego a pensar que só me deste aconchego, que quando queria colo, me aconchegavas no teu corpo, que não julgavas, apenas tentavas entender, e que não conseguiste ter uma postura firme quando eu errava, acolheste-me simplesmente, e não me colocaste perante a vida tal como ela é, e não como gostaria que fosse.
O amor que encontrei em ti, era materno, que tudo perdoava, umas vezes dizendo que era pequena demais para entender, outras que o tempo me iria moldar, mas tudo isso fez-me dependente de ti, do teu colo, do calor do teu corpo que apaziguava o mal estar que sentia, que servia de abrigo.
Os pensamentos, as ideias como referência talvez nunca fossem sentidas, porque a tua postura doce te impedia de ser firme, e colocar-me no lugar que devia.
Senti em ti, o chocolate que sempre quis, quando sentia a boca amarga, embora sentindo que tinha de mudar, nunca fui largada no mundo sozinha, como ser autónomo, para movimentar-me na selva humana, certamente por medo de alguém me magoar, muito embora o teu esforço, observo de que nada valeram teus cuidados.
Por amor tentaste livrar-me da maldição, da dor e do sofrimento, mas tal como eu, foste derrotada, porque cada vez mais sinto-me agredida com o mundo à minha volta e já lá vão trinta anos.
Talvez por isso reclame o teu corpo, e não tenha presente a referência do teu pensamento, porque a única imagem psíquica que ficou gravada, foi essa atitude materna do aconchego, que tudo perdoa, em nome de um amor, que agora me faz sofrer.
Que amor foi esse, que não me garantiu a vontade própria, a convição nas palavras e nas atitudes para caminhar rumo a um objetivo ?
Temo, que nunca tenha existido um objectivo em ti, senão o amor materno, que te fazia mais dependente de mim que eu de ti, mas que se tornou a prisão de ambas.

Choro por ti. Choro por mim.

Tenho essa sensação ruim dentro de mim, e ao mesmo tempo que causa-me frustração, desejo que estejas comigo, sem que possas estar na realidade, mas a noção da minha incapacidade em cumprir o teu espírito, como o crente que se ajoelha perante Deus, a verdade, porque mais uma vez ultrapassou as regras do bom senso e disso toma conta.
Chego a pensar se a minha vida, não é a procura da minha punição ?
A tua generosidade e amor relevam sem julgar, acalma, sinto o aconchego, o carinho, mas a que falta a firmeza na atitude, na postura, para que sinta no íntimo porque me aconteceu, o que fiz para que fosse possível acontecer, e o que devo fazer para que tal não se verifique.

Meu Deus, o que devo fazer por mim ?

Talvez a repetição de tanta proibição que o meu pai me impôs, me fizessem sentir culpada, mas que nunca entendi, e que me recolhi no teu colo na tentativa de entender alguma coisa, mas que nunca percebi porque estava errada.
O amor por aquele homem, tantas vezes convertia-se em ódio, devido ás atitudes intolerantes e repressivas, em que as poucas palavras, davam por vezes lugar à agressão física, acabando sempre recolhida num canto da sala ou no quarto, tentando com a minha boneca imaginar as mesmas cenas de que antes fora vítima.
Entendo que meu pai foi marcado pelo tempo da escassez e da dificuldade, que o tornaram ou fizeram dele o ferro, que mais vale partir que torcer, intolerante e repressivo, com a rigidez da formação de gente humilde, em que as normas da sociedade e a moral ética eram cumpridas de forma inflexível, porque sempre foi assim, e assim vai continuar.
Essa intolerância e inflexibilidade psíquica, que não admite outro modo de estar e de enxergar as coisas, que nem sabia explicar, mas que impunha de qualquer jeito, porque assim é que está certo, o que antes lhe fora embutido o gravou para sempre, passou a ser, o que outros pretenderam que fosse, uns e outros nada sabendo explicar, mas todos cientes da sua razão, tornou-se a doença do sagrado dever, de acorrentar os outros aos seus pensamentos.

De onde viria aquele sagrado dever de impor o que julgava sagrado ?
Será que existe o sagrado ?

De um lado o sagrado dever de meu pai, de proibir tudo que era proibido, do outro a Deusa vóvó, que tudo tolerava, sedutora, compreensiva.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Efeitos colaterais ( VII )

Se a doença de Parkinson conduz á perda da mobilidade e de parte da memória, no exato momento que o paciente começa a ser medicado, podemos perceber duas coisas:

- A ( re ) ativação de uma força interior, que leva o paciente á mobilidade.
- A sua capacidade de racionalizar, de acordo com o conteúdo ideativo disponível.

Mas não sabemos em absoluto, qual o conhecimento que foi entretanto perdido, nem conseguimos determinar qual o segmento que foi afetado, que de algum modo altera as condições de organização do conteúdo psíquico.

O medicamento não parece que possua a capacidade de restaurar parte do conhecimento perdido, mas apenas estabilizar um quadro biológico e psíquico, através da química.
De fato a partir desse quadro estabilizado, o sujeito pode sentir-se apto a adquirir mais conhecimentos, dado que o estar na vida é um contínuo aprendizado.
Ao ser medicado, o corpo é induzido e produz uma excitação das forças ativas, e estas tendem a manifestarem-se, necessitando de uma atividade exterior para finalizar o seu processo de desejo interior.
O modo como o vai realizar depende do conteúdo ideativo e dos sentidos.
O medicamento que atua diretamente no metabolismo, é sinalizado no psíquico, e percebe-se que a sua influência é funcional, liberando a repressão, que originava o instinto de negação e a recusa em viver.
Entenda-se como repressão, como algo julgado importante pelo o sujeito, que promove a pressão sobre os instintos, e o impossibilita de viver e movimentar-se.
Essa ( des ) compressão parece liberar a censura.
A mesma repressão que parece ter originado o instinto de negação e a recusa em viver.
Não sabemos o que foi afetado durante a ocorrência de uma forma evolutiva patológica, mas com alguma segurança podemos afirmar, que a falta de mobilidade, e, a perda de parte da memória, considerando o estado de amnésia, são atributos do corpo, como forma de responder e sobreviver a uma repressão.
Apenas a sua forma evolutiva é diferenciada de outras patologias, como a neurose obsessiva compulsiva, por exemplo.
Continuar a desenvolver este assunto nos levaria longe, e não é esse o propósito, em que a síntese aqui apresentada, tem como fundamento dois pressupostos :

- A nova forma de organização e distribuição de energia no corpo, dado que este foi induzido, através de uma injeção de química, que se traduz num fator energético e de potência, a que o sujeito é obrigado a ligar ao seu ideativo.

- E a sua relação com as imagens e idéias que sobraram do seu estado degenerativo, devido á perda de parte da memória, existindo uma nova dinâmica psíquica a ser observada.

Se existiu uma perda de conteúdo ideativo, a complexidade psíquica será outra, assim como a forma de organização do mesmo.

Para além de tudo isto, existe uma questão fundamental, a saber:

- A falta de atividade e de perda de memória, não parece que tenha uma relação com o consciente, mas sim com o inconsciente recalcado.

- Ao existir um bloqueio, ou inibição de um sentido derivado de uma repressão, provocado pela injeção de química no corpo, tende a desbloquear o elemento repressivo, que servia de censura.

A resultante é a emergência é de uma onipotência, que antes estaria omissa, agora evidenciada através do acréscimo da substância ativa ingerida.

De salientar o fato que á medida que o paciente vai perdendo a capacidade motora, e alguns fatos da memória vão sendo eliminados, tende a evidenciar-se a prepotência e a teimosia, o conduzindo à onipotência infantil.

Dou por concluído este trabalho de análise em psicanálise, não obstante estar certo que muito mais haveria que dizer, dada a sua complexidade, contudo, existiu a preocupação de ser o mais claro possível, para que as pessoas, pouco familiarizadas com a psicanálise, tivessem acesso fácil, ao que desejei transmitir.

Espero que o tenha conseguido.

Um abraço

João António Fernandes - Psicanalista Freudiano

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Eternamente crianças

O ditado popular afirma que palavras são levadas pelo o vento, que nos parece querer dizer que só os atos são a prova do caráter do indivíduo.
Não devemos por isso acreditar nas palavras ditas, e por vezes malditas saídas da boca de um corpo em aflição, que não consegue transformar a sua interioridade e expele o veneno de que se alimenta.
Tem a sensação de alívio, julgando ser a cura, quando o mau estar tende a persistir e está instalado, apenas não é sentido agora de forma tão intensa, dando a sensação de bem estar.
A cobra também tem momentos de passividade, em que é dócil e meiga na sua convivência, como na Índia por exemplo, ou em tantos outros pontos do planeta, em que o ser humano as parece encantar.
Ou ambos se encantam ?
A maioria não quer saber dessas coisas, nem consegue observar as cobras dessa forma, mas apenas que aquele animal é possuidor de veneno que pode afetar qualquer outro.
A idéia que se tem acerca de qualquer coisa tende a permanecer e é independente das outras qualidades que possa possuir, e por ela é classificada.
Não somos mais crianças o que nos poderia conduzir a uma atitude elevada de considerarmos outras possibilidades, mas continuamos aprisionados a determinada idéia.
A cobra é venenosa, nem por perto a desejamos, e quando a observamos, a tendência é para a matar ou fugir dela.
Ambas as atitudes geram movimentos que qualquer animal deteta com facilidade e tende a reagir, porque algo inusitado está a acontecer.
O imobilismo de um corpo tende a passar despercebido, e é isso que todos recomendam, e que as pessoas pretendem das outras, para que possam passear à vontade a sua vaidade e complexos de inferioridade, julgando-se poderosos.
Fazer de alguém uma estátua com que se possa comunicar, falando do seu jeito, explorando as suas virtudes, como qualquer programa de computador ou a Internet, parece ser o desejo humano.
Basta-lhe a companhia de qualquer coisa que possa comunicar e manusear que não a ofenda, para que não perca os hábitos de criança, apenas os brinquedos são outros, adaptados à sua idade.
O cão ou o gato por companhia parece fazer a felicidade do ser humano quando sente a solidão, em que o animal domesticado substitui o companheiro por ser selvagem, ou porque entretanto se perdeu, e nada mais é desejado.
São evidencias que não desejamos enxergar, porque entendemos ser superiores à própria realidade que nos é presente.
O computador, o cão ou o gato, são substitutivos, assim como tudo a que nos dedicamos.
Tudo se transforma e nada se perde.
Podemos deduzir que só nos perdemos, quando não conseguimos a transformação em nós próprios.
O não conseguir transformar a obrigação de estar na sensação de bem estar, é que nos atormenta.
O futuro só a Deus pertence, é um ditado popular que determina algo indeterminado, que apenas aponta para a existência de uma alteração e tem uma ação transformadora.
A certeza geradora de uma incerteza, nos quer dizer, que a incerteza é a única coisa em que podemos acreditar, e, de que o ser humano pode ter a certeza.
A certeza da incerteza.
As virtudes que tenta explorar nos outros, podem não ser semelhantes às suas, mas aquelas de que necessita para ter a sensação de bem estar.
Afinal, que felicidade pode trazer a uma pessoa estar seis horas a brincar com um computador ?
Mas enquanto está parece ser feliz.
Que felicidade trará ao indivíduo estar diante da tv horas sem fim ?
Mas do mesmo modo sentimos alguma infelicidade quando sujeitos a uma obrigação de estar, quando não desejamos.
A mesma coisa que nos leva a sentir o bem estar em determinados momentos é a causa do nosso mal estar em outras situações.
Parece existir a certeza da existência dos objetos e a incerteza dos seus movimentos, que tentamos condicionar para alimentar a nossa interioridade, e nos garantir a sensação de bem estar.
Se a neurose é a certeza de uma forma imposta que foi levada à consciência, que tende a repetir-se o movimento, cuja finalidade foi determinada através da repetição, pode conduzir o sujeito á transformação em outra coisa qualquer indeterminada, em que a resistência é fundamental como forma de oposição, sendo a resultante provável dessa certeza adquirida.
A indeterminação é o desejo do indivíduo cuja finalidade é impedida de ser atingida.
O fim que foi determinado tende a repetir-se.
A determinação humana de colocar um fim em tudo, transforma a finalidade como algo absoluto, uniforme, que embora seja passível de transformar-se não se pretende que o possa ser.
O movimento rumo ao infinito foi interrompido, e o finito parece causar no ser humano a sensação de mal estar, por cortar-lhe a liberdade do movimento e o condicionar a uma forma de pensar e estar.
A instabilidade é provocada pela estabilidade, e esta se impõe após um período de instabilidade, em que o movimento acontece não tendo em conta os limites impostos pela estabilidade.
Pretende-se limitar os outros porque entendemos os nossos próprios limites, e nos servimos deles como instrumentos para atingir determinada finalidade por incapacidade própria.
Eis a criança incorporada num corpo adulto, em que se faz notar a total dependência em relação ao outro.
A exigência da presença do outro, tem a ver como o movimento que não consegue realizar de modo próprio, e por isso tem alguma dificuldade em estar sozinho, em que tem consciência do finito.
È a imposição de limites que ele não consegue ultrapassar e por isso tem a sensação de mau estar, em que o outro é o instrumento de que necessita para continuar o movimento agora de modo indeterminado e ao sabor do alheio.
Não parece que seja o indeterminado que causa mal estar, mas antes o determinado.
O quarto escuro não determinada nada, mas quando determinado por alguém que afirma estar lá um fantasma que o vai matar ou provocar algum mal, o mau estar aparece.
O adulto saberia que por detrás daquela porta não existe nada, a não ser os objetos reais que estão para além dela, mas ao acreditar que existe uma forma virtual e imaginária, ele é o pensamento de criança em corpo de adulto.
A droga e o álcool, transforma os limites em algo indeterminado, sem limites, e por isso o ser humano nesse momento tem a sensação de bem estar, de felicidade.
A ciência, a investigação, a filosofia, o saber e a arte não tem limites e talvez por isso as pessoas tendem a ser felizes e a criar.
O objetivo como referência, e não como valor absoluto, garante toda uma série de ligações, que não um fim determinado, o que permite o movimento e a sensação de bem estar.
Como podemos enquadrar os valores morais, segundo esta perspetiva, parece ser a grande questão e o desafio deste século.
A raiva é um sinal de impotência de quem julga ter poder.
O indivíduo não tem consciência da sua impotência, mas consciente do seu poder tende a exercer pressão sobre o outro, quando não consegue seus intentos.
Significa que a estrutura formativa apresenta uma idéia determinada,objetiva, o poder.
Lutar pela posse de qualquer coisa, mesmo ideias que seja, é próprio da criança, que ao ser proibida chora e esperneia, deita no chão, aborrece e chateia meio mundo, na tentativa de obter o seu desejo.
Se a criança deseja a posse dos objetos e por eles luta sem entender nada acerca deles, do mal ou bem que lhe possam causar, o mesmo acontece com o adulto quando utiliza o cartão de crédito e tem alguma dificuldade para pagar os seus desejos.
A frustração manifesta-se através do corpo, seja criança, adolescente ou adulto, a agitação é observada, assim como a apatia em alguns casos, em que todos sentem a impotência e tendem a ter uma resposta ativa ou passiva em relação a ela.
Se a criança sente a impotência perante as atitudes do adulto, que tenta determinar o seu próprio sentido, o que emerge é a reclamação por algo que a satisfazia ou julga satisfazer.
Num segundo passo tenta lutar contra a oposição, mas sente a impotência em levar por diante suas intenções porque algo mais forte que ela o impede.
Quando atinge a plenitude do desenvolvimento físico percebe ter tanta força como os demais, e não se faz esperar os resultados.
Aquele que foi sempre sujeito ao poder e sentiu-se impotente, o não compreendido tolheu o seu desenvolvimento psíquico, sente-se afetado quando algo o faz recordar e aprisionar a essa idéia de impotente, que não deseja.
Ele é, mas não deseja ser.
Nota-se a impotência face aos seus desejos.
È uma atitude de defesa face aquilo que entende ser uma agressão.
Reage perante os desejos dos outros ou atitudes sem qualquer significado, porque entende imposições ao seu próprio desejo de ter poder.
O que não deseja, o poder dos outros, o faz falar de um modo e agir de outro.
A fala transmite seus desejos.
A ação determina sentimentos, os não desejos incorporados, dos quais não se consegue libertar.
Somos colocados perante a realidade e o virtual.
O virtual é algo que emerge como desejado, e só a realidade, o acontecido, nos consegue dar a verdadeira dimensão de uma postura psíquica face aos acontecimentos.
Talvez por isso os heróis virtuais tendem a aumentar a cada dia, como forma de realização pessoal, devido a uma impotência sentida que os impedem de afirmar-se face à realidade.
A necessidade de afirmação do ser humano parece evidente, e perante a impossibilidade tenta criar uma possibilidade.
O sistema apresenta sempre um sentido de autonomia, de adaptação face à realidade, o que não significa que o consiga ter em absoluto, mas o terá de algum modo em muitas ocasiões.
As possibilidades e a liberdade parecem andar de mãos dadas, e o sujeito quando aprisionado tenta libertar-se, e nem sempre pensa nas atitudes e consequências posteriores, movido pela realidade imediata.
Apresenta consciência em relação ao ato que tolhe seus movimentos, o aprisiona, e tudo o resto à posteriori são probabilidades que podem vir a acontecer.
O que virá depois, só Deus sabe. O futuro a Deus pertence.
Coloca-se então a lógica proveniente de princípios, que mais além tende a refletir-se como sendo a probabilidade transformada em ação.
Lógica existe em qualquer circunstância, apenas devemos entender de onde ela é proveniente, quais os princípios em que ela assenta, sendo o movimento que tem em conta uma referência, cujo desenvolvimento tem em atenção tais pressupostos.
A certeza é o fim da dúvida, mas também poderá ser o inicio de uma frustração, que poderá ou não vir a acontecer.
A certeza da resultante não existe, mas apenas a probabilidade da sua existência.
A dúvida persiste quanto ao resultado final, mesmo tendo a certeza dos fatos anteriores.
São as certezas produzidas pela mente que nos provoca a sensação de bem estar, em que a frustração não será mais que essas certezas derrubadas.
Só sei, que nada sei.
È uma frase célebre de um homem sábio, que tinha a certeza da sua própria ignorância.
Podemos ser felizes com as dúvidas ?
O homem das dúvidas, o Filósofo, poder ser feliz ?
Desde que tenha a certeza da dúvida, em que apenas se rege pela convição dos seus princípios e conceitos.
A questão parece prender-se fundamentalmente com a finalidade de um projeto, que parece não ter fim.
A certeza parece funcionar como algo que coloca um fim, que determina algo, atingindo a sua finalidade e por isso esgota-se em si própria.
Ao persistir a duvida, a sua função permanece ativa, exige uma constante atenção psíquica, mesmo que exista uma dificuldade para a sua compreensão, e em atingir a sua finalidade.
Diferente será a dúvida da certeza neurótica.
O sistema não caminha para a uniformidade, mas para o semelhante, em que nada é igual ao que fora antes, em que os opostos surgem como parte importante da cadeia de uma transformação constante.
Eternamente crianças, não tendo a certeza de nada, convencidos que de tudo temos a certeza.

domingo, 23 de maio de 2010

Efeitos colaterais ( VI )

Inversão de sentidos

O medicamento no caso da doença de Parkinson, parece restabelecer as condições imediatamente anterior ao estado de paciente do indivíduo, sem que possamos observar a solvência de um conflito psíquico, nem sequer damos conta da sua existência, que o conduziu até á doença.
A indústria farmacêutica desenvolve os seus estudos e investigação, tendo em conta as alterações do metabolismo, mas ainda não encontrou a receita para operar ao nível da organização da mente, e muito provavelmente nunca encontrará.
Tenta ( re ) equilibrar a química no corpo através de substâncias ativas, no entanto a organização ideativa no psiquismo é coisa que foge ao controle da química, porque não estamos a tratar de algo orgânico, genético, biológico, mas de uma complexa associação de imagens e idéias, pura energia, da qual emerge um sentido, que faz debitar no organismo determinada química.
O que o medicamento consegue fazer é retirar o sentido ao paciente, injetando, bloqueando ou inibindo determinada química, para que, de forma artificial regresse o bem estar, garantindo alguma satisfação por viver.
Os sentidos mórbidos, obsessivos, de agressividade excessiva, e até de alguma apatia, são de algum modo aliviados, que impede de fato, que o ser humano possa cometer algumas loucuras, atentando por vezes contra a vida dos outros, e contra a sua própria vida.
Mas não invalida, que possamos perceber nisso a tentativa de inversão de sentidos emergentes de um sistema psíquico organizado, cuja finalidade é suster o desprazer e a insatisfação, o que de algum modo é conseguido com êxito.
E neste ponto nos encontramos numa encruzilhada, num beco sem saída, que leva tantas vezes o paciente a ser dependente do medicamento por toda a vida, não tanto por habituação, mas por necessidade de fato.
Mediante uma determinada organização das idéias no psiquismo, de onde resulta um sentido, este é de certo modo impedido de manifestar-se através do corpo, dado que o medicamento bloqueia, inibe, ou libera determinada química, induzindo o corpo a tomar sentido de uma substância, que não sabe se é natural ou artificial.
Somos a considerar por isso, que ao manterem-se as associações de idéias, e sentidos emergentes de uma determinada organização psíquica, parece ser pouco provável que o sujeito possa regressar a uma vida ativa, ao suspender o medicamento.
Ao não tocar na forma como estão organizadas as idéias no psiquismo, e isso só poderá ser feito através da análise, elas mantêm-se no seu estado original, pelo que a retirada do medicamento, corresponde normalmente ao agravar do seu estado de saúde, em virtude da suspensão do bloqueio, ou do efeito inibidor, que o medicamento provoca.
Podemos deduzir, que o medicamento é importante para ocorrer a situações de emergência, mas não menos importante será um trabalho de análise psicanalítica durante esse período, cuja finalidade tem em vista a ( re ) elaboração dos seus conflitos psíquicos e alteração do seu sentido interior.

Retomaremos o assunto em breve.

sábado, 22 de maio de 2010

Insónia

No silêncio da noite, emerge do escuro os pensamentos da morte anunciada, embora sem data marcada, tende a permanecer de forma bem vincada.
A tranquilidade do corpo e a alma atormentada, fabrica a insónia não desejada, porque algo queremos esquecer, que por lembrar nos agita e não nos deixa adormecer.
Doutor, eu sofro de insónias, diz a Margarida.
Receite um sedativo qualquer para que possa descansar em paz.
Na realidade ela não sofre de insónias, apenas é a consequência de um mau estar interior proveniente de pensamentos mais ou menos obsessivos que não a deixa adormecer, e para eles a receita médica não existe.
O sedativo que pretende é a morte artificial que deseja, como forma de a impedir de pensar.
A Margarida entrou numa espécie de labirinto em que anda sempre às voltas, com o remédio, a insónia e os pensamentos que não deseja, e não encontra qualquer saída.
Mas a coisa está equilibrada, tomo o remédio quando sinto que não consigo adormecer, e de seguida nem os pensamentos ficam para causar a tormenta.
Mais tarde confessa, que toma o remédio antes que os pensamentos tomem conta de si, deslocando a obsessão, que antes estava vinculada a determinados pensamentos e a preocupação voltou-se para o remédio que a salva da tempestade psíquica.
Mas que é feito dos pensamentos da Margarida ?
Desapareceram como por encanto ?
Ou simplesmente permanecem iguais, intocáveis, embora ocultos ?
Eles estão aquietados, mas continuam à espreita atrás de uma porta qualquer, à espera que ela se abra para fazer sentir à Margarida a sua presença.
O pensamento reclama e em voz baixa deixa escapar um lamento :
- Como a Margarida pode ser tão ingrata ao desejar-me abandonar, quando faço parte do seu corpo ?
Triste e pensando estar abandonado, deixa-se ficar a um canto recolhido na esperança que a Margarida note a sua presença e o chame de volta ao seu convívio.
Está aquietado mas não conseguiu sair do corpo, porque está alojado na alma.
Mas como mandar embora o malvado que tantas noites de tormenta tem causado ?
A Margarida parece não saber por isso interroga-se.
Deixa passar a ideia de uma impossibilidade em relação ao seu próprio pensamento, em que sente que é dominada por ele e não consegue uma autonomia que lhe permita mandar pela porta fora aquilo que a atormenta.
Eu não consigo deixar de pensar, afirma ela.
O que ela não consegue é pensar de forma diferente, porque deixar de pensar só mesmo um ataque de amnésia ou o remédio.
Mas como pensar diferente daquilo que penso ?
Pensando.
Mas se eu não consigo pensar de modo diferente, e por isso tomo o remédio, como um dia o poderei conseguir ?
Pensando.
Mas o quê ?
Acerca de coisa diferentes.
Mas isso é o que não consigo fazer, afirma ela.

A Margarida tem razão e não vale a pena insistir que ela tem que pensar em coisas diferentes, porque demonstra uma incapacidade própria em o fazer, e está aprisionada a uma forma de pensar que bloqueia a sua própria liberdade em pensar outra coisa qualquer.
Curioso, o remédio prende o pensamento e o coloca na cadeia, e quando liberto, a instabilidade emocional toma conta da Margarida.
Existe, muito embora inconsciente uma forma proibitiva e punitiva que emerge da forma de pensar da Margarida, em que tenta eliminar a insónia com recurso a um remédio, que é o instrumento agressor e punitivo, que vai reprimir os pensamentos demoníacos contidos em si.
O doutor parece ser visto como o pai salvador que a livra de tais pensamentos.

Obrigado senhor doutor por livrar-me do mal, Amén, bem haja.